Matéria-prima

Cenários de expansão são traçados por pesquisa a partir de dados do IBGE

Canavial - Unica (3)

O documento Cenários territoriais para 15 produtos agroenergéticos, publicado por um grupo de pesquisadores da Embrapa, traz informações a respeito da distribuição geográfica de matérias-primas com potencial agroenergético no Brasil. Disponível desde outubro de 2012, a publicação apresenta as microrregiões em que se concentram as principais culturas agrícolas que estão ou podem ser inseridas nas cadeias produtiva da bioenergia no Brasil. Para a elaboração da pesquisa, que foi iniciada em 2007 e concluída em 2011, utilizaram-se dados publicados pelo IBGE e que existem na base de dados da Embrapa. Os autores traçaram cenários de expansão dos cultivos nos próximos cinco anos.

Entre as culturas abordadas no estudo estão cana-de-açúcar, dendê, mamona, soja, babaçu, buriti, pequi, tucumã, amendoim e coco-da-baía. Também são considerados produtos da silvicultura (carvão e lenha) e da extração vegetal (carvão, lenha e madeira em tora). Para cada um deles, o documento apresenta o mapa com a distribuição espacial dos conglomerados de produção, os chamados clusters, a participação dessas regiões no volume de produção nacional e projeções de futuro.

Segundo o pesquisador da Embrapa e um dos autores do documento, Fernando Luís Garagorry, “a concentração espacial refere- se, em termos simplificados, ao fato de que, para qualquer produto, há uns ‘poucos lugares’ onde ele se concentra”. Já a dinâmica é avaliada porque “os produtos agrícolas apresentam notáveis deslocamentos no território nacional”.

Método

A pesquisa é uma continuação de publicações anteriores, intituladas “Evolução da agricultura brasileira em um período recente”, que estudou 35 produtos, dando atenção aos aspectos relacionados com a concentração espacial e com a dinâmica, entendida, essencialmente, como o estudo do movimento da agricultura no território nacional.

A publicação mais recente levou cinco anos para ser concluída e adicionou o estudo de 14 novos produtos, designados como agroenergéticos. A primeira etapa de elaboração do documento se deu com a determinação de conglomerados que reuniram, pelo menos, 75% da produção, em todos os anos de 2002 a 2006. Em seguida, em cada um desses conglomerados, construção de projeções utilizando as estatísticas de 1990 a 2009, com horizonte de cinco anos (2010-2014). Finalmente, foram delimitados os possíveis cenários de produção, com base nas projeções e seus intervalos de confiança, após realizar, eventualmente, alguns ajustamentos considerados necessários.

Aplicação

De acordo com Fernando Luís Garagorry, os resultados são de interesse, em primeiro lugar, dos dirigentes de pesquisa e outros pesquisadores. “Em princípio, para tomar determinadas decisões sobre pesquisa relacionada com certo produto, é útil contar com uma caracterização das principais regiões produtoras em anos recentes e o tipo de evolução que se pode esperar para os próximos anos nessas regiões.”

Em segundo lugar, Garagorry considera que os resultados podem ser de interesse para planejamento, tanto no setor público quanto no setor privado. “No setor público, para saber as regiões em que é necessário prover infraestrutura (estradas, armazéns, por exemplo) e serviços (assistência técnica, seguro agrícola etc). No setor privado, os resultados podem orientar produtores rurais, cooperativas, fornecedores de insumos que estejam considerando aumentar as áreas com produtos agroenergéticos”, afirma.

Para Garagorry, identificar territórios onde se tem concentrado parte substancial da produção de determinada cultura e indicar possíveis evoluções dessa distribuição espacial são ações que contribuem para o planejamento de projetos de pesquisa, serviços de crédito e assistência técnica e ações de defesa sanitária, por exemplo.

O pesquisador da Embrapa Agroenergia e também autor do documento, José Manuel Cabral, explica que outra aplicação dos estudos desenvolvidos está na possibilidade de avaliação de mudanças diretas e indiretas no uso da terra. “Esses parâmetros têm sido adotados como indicadores importantes em diversos estudos da sustentabilidade do uso de etanol e de biodiesel como substitutos dos combustíveis de origem fóssil”, ressalta.

Cabral ainda considera que, com a análise das séries históricas da localização das culturas agroenergéticas e elaboração de projeções para a expansão delas nos próximos anos, é possível medir com precisão as variações no uso da terra em determinadas regiões e avaliar eventuais impactos sobre outras regiões de vocação agrícola e mesmo sobre áreas componentes dos biomas naturais. “Levando em conta os resultados do documento, para cana-de-açúcar, por exemplo, pode-se ver que a área dessa cultura no Estado do Mato Grosso alcançará pouco menos de 120.000 hectares em 2014, área muito pequena para causar abalos no uso da área agricultável do Estado e em regiões situadas no sudoeste mato-grossense e que estão muito longe de invadir ou mesmo ameaçar a Floresta Amazônica”, ressalta.

Também é possível considerar outras análises para as quais a localização geográfica e a expectativa de aumento ou diminuição de áreas e produções são essenciais, como por exemplo, para a formação de polos agroindustriais, a necessidade de armazenamento das colheitas, o estabelecimento das cadeias logísticas de fornecedores de matérias-primas, insumos, sementes, máquinas e implementos para determinadas culturas, bem como das de produtos e co-produtos, a expansão ou contração de mão de obra qualificada e não qualificada, a necessidade de serviços de capacitação e treinamento.

 Ana Flávia Marinho-Canal –Jornal da Bioenergia

 

Deixe um comentário