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O reuso reduz a demanda pela água

andre elia

  A preocupação com a reutilização da água no processo produtivo, a fim de reduzir o impacto da captação nos recursos hídricos, tem sido recorrente nas empresas produtoras de açúcar, etanol e bioeletricidade. Com a introdução de processos de racionalização e reuso de água, a captação vem diminuindo de forma abrupta ao longo das últimas décadas.

 Desde 1995 o setor sucroenergético vem adotando a estratégia em relação à questão de captação e uso de água, tendo em vista a sustentabilidade ambiental proveniente da menor pressão por recursos hídricos, do menor impacto financeiro na cobrança da água e o uso racional com o reaproveitamento dos despejos. A meta buscada pelo setor é de 1 m³/t cana de água captada para suprir o uso industrial e zero metros cúbicos de lançamento de efluente em corpos de água.

 O balanço material de água de uma atividade industrial, mais comumente conhecido como balanço hídrico industrial, é uma excelente forma de iniciar o processo para maximizar o uso e reuso de água, pois permite diagnosticar visualmente a situação atual da indústria e os pontos onde se deve intervir de forma mais imediata para se obter a pretendida redução da captação. Pode-se agir no tipo de equipamento, no processo ou ainda simplesmente na cultura da empresa e seus funcionários, procedimentos estes denominados Produção mais Limpa (P+L). Devem ser consideradas as reutilizações da água nos vários circuitos, com ou sem tratamento, e mesmo aspectos de racionalização dos usos da água, chegando-se a uma captação bem menor como se verá adiante, conforme o estágio de reutilização que a unidade industrial se encontre. A retirada média atual de água, principalmente nas usinas da região canavieira do Centro Sul, é próximo a 2 m³/t cana, muito embora várias usinas já se situem em um maior patamar tecnológico, captando apenas 1 m³/t de cana com fechamento de circuitos de água e a prática de reuso.

Como as necessidades médias de água para o processo industrial giram em torno de 22 m³/t cana, pode-se perceber que é um nível baixo de captação e indica o reuso da água no processo industrial maior que 90%. Isto propicia uma menor pressão por novas fontes de abastecimento de água, otimizada pela prática do reuso agrícola de despejos e resíduos na fertirrigação da lavoura de cana-de-açúcar; contribui também para a manutenção da qualidade dos mananciais, que não recebem o remanescente de poluição de eventuais sistemas de tratamento. Com a meta de captação de água de 1 m³/t cana, o que hoje é uma realidade na maioria das usinas, o setor tem capacidade de reduzir mais ainda a pressão por recursos hídricos. Tecnologias de ponta em desenvolvimento e a serem desenvolvidas possibilitarão aproveitar melhor a água contida na cana, e consequentemente a captação de água, podendo-se atingir um novo patamar de captação de água abaixo de 0,5 m³/t de cana processada.

 A busca da meta e sua ultrapassagem na captação da água no setor sucroenergético é uma questão muito importante, pois as certificações internacionais ambientais adotadas hoje com o padrão Bonsucro avaliam, também, o melhoramento contínuo dos recursos hídricos. Os critérios das certificação estabelece que, na área industrial, a água captada seja inferior a 20 litros por quilo de açúcar produzido e 30 litros de água por kg de etanol produzido.

 Já na lavoura de cana, a água captada e utilizada na irrigação deve ser inferior a 130 litros por quilo de cana colhida. Ou seja, 130 m3 por tonelada de cana, que, dependendo do rendimento agrícola médio, indicam como limite sustentável lâminas de água de irrigação altas, em torno de 1,1 mil mm/ano. Isso é muito além do normalmente necessário para uma irrigação de salvamento (cerca de 100 mm/ano) ou suplementar (cerca 250 mm/ano) ou mesmo irrigação plena praticadas em pouquíssimas usinas do Nordeste e Centro-Oeste com lâminas abaixo de 500 mm/ano.

Dessa forma as usinas brasileiras atendem com folga esses padrões internacionais, mostrando que no quesito do uso de recursos hídricos, o setor sucroenergético brasileiro apresenta alto grau de sustentabilidade ambiental, conforme assunto que foi abordado em 29/8, no 6°. Fórum Internacional pelo Desenvolvimento Sustentável (Sustentar 2013), mais especificamente no debate “Biodiversidade e gestão das águas”. Foi uma oportunidade para desfazer mais um mito do setor de que é um grande consumidor de água. Em geral, os argumentos se baseiam em valores de captação de água praticados no passado que não condizem com a atual realidade.

ANDRÉ ELIA NETO

CONSULTOR AMBIENTAL E DE RECURSOS HÍDRICOS DA UNIÃO DA INDÚSTRIA DE CANA-DE-AÇÚCAR (UNICA)

*Artigo publicado originalmente no Estado de Minas.

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