Capacitação

Expansão da mecanização agrícola exige novo perfil de colaborador em campo

 

COLHEDORA CANA

 O que se via nos canaviais espalhados pelo Brasil há pouco mais de cinco anos era uma realidade totalmente diferente dos dias atuais. Com as inovações tecnológicas, os investimentos para ganho de produtividade, além das leis que buscam garantir a segurança dos colaboradores e a preservação ambiental – como redução e fim das queimadas -, a figura do cortador de cana-de-açúcar deu espaço para máquinas e implementos agrícolas, implantando cenário de mecanização no campo.

A partir de 2014, na maior parte dos canaviais paulistas, por exemplo, a mecanização terá de atingir 100% da colheita, como prevê a lei 11.241/02 e o Protocolo Agroambiental assinado em 2007. O fogo só poderá ser usado até 2017 em áreas onde a topografia não permite a colheita mecanizada. Segundo dados da Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema), a área de cana-de-açúcar mecanizada no Estado de São Paulo atingiu 72,6% na safra 2012/13. A utilização de máquinas para evitar a queima na hora da colheita ficou em 85% nas usinas.

Com essa mudança de panorama, criou-se um novo perfil de mão de obra no setor sucroenergético, que agora precisa ser capacitada, exigindo que o profissional ‘recicle’ seus conhecimentos e invista na qualificação. A mecanização veio acompanhada dessa necessidade de especialização dos trabalhadores para a ocupação de novas funções, que até o momento se mostrava totalmente distante da realidade da maioria.

É imprescindível que o novo profissional tenha habilidade de operação, desde a simples ação de dirigir até o controle de computadores de bordo de máquinas de última geração. Além da questão econômica, já que o colaborador utilizará equipamentos que valem milhões de reais, a capacitação garante segurança. Segundo um dos engenheiros responsáveis pela Qualifica Engenharia e Segurança, Jéliston Patrício Couto, a operação de equipamentos de grande porte torna-se mais fácil e leve à medida que os trabalhadores se qualificam.

De acordo com o gerente de contas estratégicas do segmento Cana-de-Açúcar para América Latina da John Deere, Carlos Newton Graminha, a capacitação da mão de obra reflete, principalmente, no desenvolvimento socioeconômico dos trabalhadores rurais, o que é importante para todos que trabalham no campo. “A mecanização cria novas perspectivas para estes trabalhadores, uma vez que, mais qualificados, podem melhorar suas condições e qualidade de vida. Trata-se de uma realidade que beneficia toda a cadeia produtiva”. Ele explica que hoje existe uma demanda cada vez maior das usinas brasileiras por operadores capacitados para este trabalho. Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a cultura da cana-de-açúcar continua em expansão para a temporada 2013/14. A previsão é que o Brasil tenha um acréscimo na área de cerca de 408 mil hectares, equivalendo a 4,8% em relação à safra 2012/13. O acréscimo é reflexo do aumento de área da Região Centro-Sul.

Carlos orienta que não há uma formação necessária e, sim, uma habilidade mínima para o desempenho da função. “O operador precisa ter habilidade de compreender o funcionamento do equipamento, suas regulagens e ajustes, feitos normalmente por comandos digitais em uma tela touch screen”. Outro fator importante é a disposição para aprender e executar as indicações de manutenção básicas do equipamento, que também são de responsabilidade do operador. Tudo isso garante um melhor desempenho e, consequentemente, a maior produtividade do canavial. Para ele, a mecanização na cana de açúcar é complexa e exige especialização e habilidades especiais, maiores quando comparadas à atividade de grãos, por exemplo, onde as máquinas são mais automatizadas e fáceis de operar. “Essa complexidade demanda ainda mais habilidade do operador e, por isso, a capacitação é a chave do sucesso nesta nova fase da mecanização do setor”, enfatiza.

 Investimento em campo

A necessidade desse novo perfil dos profissionais já foi percebida pelas empresas, que possuem programas de formação conforme as necessidades do mercado regional de cada uma delas. Os programas são adaptados de acordo com a habilidade dos funcionários, partindo do teórico básico, das aulas de direção e de conhecimentos mecânicos até chegar a um nível superior, onde eles operam a máquina com a presença de um instrutor.

De acordo com Jéliston Patrício Couto, as usinas vêm realizando um papel importante na formação de mão de obra qualificada, por meio de multiplicações internas para seus colaboradores e externas para membros da comunidade, visando inclusive futuras contratações. “Em função da NR 31 do Ministério do Trabalho (MTE), que determina que todo operador deve ter treinamento mínimo de 24 horas para sua máquina, a realização dos treinamentos intensificaram- se, assim como sua integração e reciclagem. Estes treinamentos são oferecidos por sistemas de ensino do governo e por empresas de treinamento particular”, ressalta.

A Qualifica Engenharia e Segurança, por exemplo, vem, nos últimos cinco anos de trabalho específico na área de formação, desenvolvendo mecanismos de aperfeiçoamento didático e técnico. Jéliston Patrício Couto revela que não são apenas instrutores que ministram treinamentos de forma aleatória, há toda uma equipe de profissionais nos ‘bastidores’ pronta para fornecer suporte técnico e administrativo para quem está na linha de frente. “No que tange ao treinamento de operação de máquinas, o aluno tem por exigência sair de um treinamento como este não apenas com o domínio da parte teórica, mas principalmente pronto para operar de forma eficaz e segura os equipamentos”, reforça. Hoje, a empresa oferece mais de 70 treinamentos prontos para atender um mercado que tem sede de qualificação. Os treinamentos, invariavelmente, são ministrados na companhia em função da maior mobilidade e da agilidade que é possível oferecer ao público.

Já a John Deere investe alto em novas tecnologias, em treinamento e em inovações que beneficiem os produtores. Em âmbito global, a John Deere investe em média US$ 3 milhões por dia em inovação, o que representa um valor superior a US$ 1 bilhão ao ano. Segundo Carlos Newton Graminha, a empresa acredita que a mecanização é fundamental nesse setor e investe alto em tecnologia para levar aos produtores sistemas que tornem o processo de produção da cana-de-açúcar cada vez mais seguro e eficiente. “Mantemos cursos de capacitação para a rede de distribuidores e clientes, sejam operacionais ou de manutenção, informa.

Além dos cursos, com o aumento da demanda de operadores, a John Deere trouxe ao mercado um simulador de operação de colhedora de cana. Os aparelhos facilitam e otimizam o aprendizado do operador – proporcionando diferentes experiências e situações –, ajudam a evitar danos às máquinas, diminuem os gastos com combustível e aumentam a produtividade dos canaviais, reciclam o conhecimento dos operadores já treinados e capacitam os novos. “Além disso, por ser fácil de transportar, pode ser levado a áreas diferentes das usinas”.

O Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de Goiás (Senar Goiás) também atua nessa área, oferecendo ao empregador e trabalhador rural benefícios como rendimento do trabalho, execução correta das tarefas, conscientização e responsabilidade no uso dos equipamento de segurança (EPI), noções sobre segurança no trabalho e outros temas fundamentais para o incremento produtivo da empresa e a empregabilidade da mão de obra.

De acordo com o coordenador técnico do Senar Goiás, Cláudio Pereira, a instituição recebe demanda por qualificação de diversas partes, das usinas, dos trabalhadores rurais e agora vem crescendo a procura por pessoas da área urbana que descobrem nesse setor uma oportunidade de emprego. Para orientar esse público, o Senar Goiás vem buscando parcerias com as usinas do setor sucroenergético por meio de sindicatos rurais, divulgando os diversos cursos de qualificação e treinamentos de aperfeiçoamento nas várias áreas. “Os maiores incentivos são a promessa de crescimento profissional dentro da empresa, a perspectiva de melhor remuneração e qualidade de vida”, finaliza.

Fernando Dantas- Canal- Jornal da Bioenergia

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