Detritos

Destinação correta na produção de etanol e açúcar

Carlos Alberto Veloso Gestor de instrumentação e elétrica fala da produção de bioeletricidadeA sobra de resíduos é um problema nas indústrias em geral. O desafio também acontece no setor sucroenergético. Atualmente, os resíduos da cana-de-açúcar são amplamente reutilizados. O bagaço, o vinhoto e afins se tornam combustível em caldeiras para geração de energia e calor, alimento para bovinos, fertilizantes, para a forragem do solo, como composto orgânico, e até mesmo para a purificação da água.

O uso mais comum é a geração de energia elétrica a partir do bagaço de cana. As próprias usinas do setor sucroenergético funcionam com a força produzida com a queima do resíduo. O excedente dessa produção geralmente é revendido para a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Na construção civil o bagaço da cana e outros resíduos da indústria são coprocessados e transformados em combustível alternativo substituindo a utilização de combustível fóssil. A Ecoblending, empresa do grupo EcoParticipações, reaproveita, mensalmente, toneladas de resíduos para o aquecimento de caldeiras e produção de cimento.

A empresa, com sede em Goiás, reutiliza os resquícios provenientes de processos de purificação, subprodutos, de limpeza de equipamentos, de erros de processo e com vencimento do prazo de validade.

Para a Ecoblending, o coprocessamento apresenta vantagens, em especial ao meio ambiente. O processo permite a recuperação energética, não gera cinzas nem subprodutos. Também reduz a geração dos gases do efeito estufa e do uso de recursos naturais não renováveis, como o petróleo e seus derivados e das jazidas de calcário.

Outra destinação ambientalmente correta é o uso da torta de filtro de cana-de-açúcar, um subproduto das indústrias sucroenergéticas, na produção de fertilizantes.

A Geociclo, situada em Uberlândia (MG), realiza esse processo de fabricação de fertilizante organomineral a partir de resíduos orgânicos, com a torta de filtro e cinza de caldeira e o esterco in natura da criação de aves. Em um ano, são reaproveitados 30 mil toneladas dos subprodutos da cana nessa indústria.

Para a confecção do fertilizante, os resíduos orgânicos passam por um processo de compostagem assistida, que os descontaminam e os transformam em fertilizante orgânico. O material resultante é combinado com nutrientes minerais de elevado teor e industrializado.

Atualmente, a fábrica da Geociclo em Uberlândia tem capacidade para produzir 25 mil toneladas de fertilizantes por ano. Devido à alta demanda, a empresa antecipou os planos de expansão e a fábrica terá sua capacidade de produção quadruplicada para 100 mil toneladas por ano a partir de 2014, com uma nova indústria em Goianésia, em Goiás.

A Agrovale, na Bahia, enriquece o bagaço de cana e o transforma em adubo orgânico. O substrato composto pela mistura entre bagaço de cana e torta de filtro funciona como fertilizante para as plantas.

A mesma empresa também transforma o bagaço da cana-de-açúcar em alimento para bovinos. O resíduo é hidrolisado, um processo que atua na fibra do bagaço, tornando-o mais digestivo para o animal, e serve de alimento.

Ainda na agricultura, grande parte do vinhoto também retorna para a lavoura durante o processo de irrigação como adubo, já que esse resíduo é rico em potássio. No entanto, o professor de Meio Ambiente do Instituto Federal de Goiás (IFG) e coordenador do mestrado de desenvolvimento e planejamento territorial da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC–GO), Antônio Pasqueletto, destaca que o uso desse resíduo nas lavouras deve ser controlado, pois existe o risco de contaminação dos lençóis freáticos e os cursos d’água.

Pasqueletto também destaca que a fibra do bagaço de cana-de-açúcar é reaproveitada na fabricação de embalagens de comida. “No local do isopor, que é um derivado do petróleo, usa-se a fibra, que é biodegradável”.

  Fibras de cinzas para filtrar água poluída

 Um estudo do coordenador do curso de Gestão Ambiental da Uni-Anhanguera, de Santo André (SP), Antônio Iris Mazza, teve como foco o reaproveitamento do bagaço da cana-de-açúcar para purificar a água poluída. “Resolvi usar coisas que eram jogadas fora”, explica. O processo de patente do produto ainda está em andamento.

O objetivo do professor é fazer com que a destinação do bagaço seja sustentável, usando-o como substituto do carvão ativado, por ser um produto mais barato e renovável. “E nada melhor que procurar essa alternativa no lixo”, salienta. Assim, há cinco anos foram iniciadas as pesquisas e realizados mais de 600 testes.

Na primeira avaliação, o consultor ambiental utilizou a cinza do bagaço para atrair contaminantes do esgoto doméstico da cidade de Santos. Os primeiros testes foram positivos. Depois, o procedimento apresentou resultados que não eram constantes e, por isso, não obteve sucesso.

Mais testes foram feitos e o professor resolveu passar a cinza por um processo mecânico, transformando-a em uma biomassa constante, em uma fibra. “Em uma brincadeira, consegui retirar com essa fibra os corantes de um refrigerante”, explica.

Após mais estudos, o consultor ambiental conseguiu retirar até 85% da cor da água poluída com corantes de cor vermelho, amarelo e azul. Apenas duas gramas de resíduo foram suficientes para retirar o corante de um litro de água contaminada. Na centrífuga, a mistura ficou por 20 minutos a 100 rotações por minutos. “Este tempo é maravilhoso. Na aplicação em uma indústria, se o tempo for superior, o reservatório deve ser maior e mais gastos seriam necessários”, explica Mazza.

Mais estudos para o uso do resíduo da cana- de-açúcar são feitos por Mazza. Para ele, a cinza do bagaço tem um alto potencial no processo de filtragem. As pesquisas iniciais mostram que o bagaço ainda tem a capacidade para fazer uma completa despoluição da água, como retirar os metais pesados imersos, o odor, o material orgânico e até mesmo filtrar sólidos em sustentação. “Todos os produtos de tratamento de água, atualmente, são muito caros. O uso de resíduos é mais barato e sustentável”, finaliza.

 Canal-Jornal da Bioenergia

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