Doenças e pragas

Helicoverpa armígera pode afetar a cana-de-açúcar

Doenças e pragas canavial 3 usina sao joao 134x200Os canaviais, assim como as demais culturas, sempre tiveram inimigos naturais – as doenças e pragas. Mas nos últimos tempos uma lagarta, a Helicoverpa armigera, tem causado preocupação a especialistas do setor. Apesar de recém-chegada ao Brasil, está presente em praticamente todas as culturas de interesse econômico. O inseto já atingiu as lavouras de soja, milho, tomate, feijão, algodão, sorgo, hortaliças e citros por todo o País. E o receio é que possa migrar para os canaviais.

Para os especialistas, o cenário atual é preocupante, já que a praga foi constatada em diversas áreas do Brasil. O alerta é que, na próxima safra, os produtores devem estar preparaddos uma população ainda maior da Helicoverpa armigera.

O professor titular de entomologia da Escola de Agronomia da Universidade Federal de Goiás (UFG), Paulo Marçal Fernandes, alerta que existe a possibilidade dessa lagarta entrar nas lavouras de cana-de-açúcar. Ele ressalta que, em pesquisa realizada em laboratório, a lagarta completou o ciclo de evolução e se alimentou da cana. “Com essa análise, ficou confirmado que existe grande possibilidade da Helicoverpa armigera atingir os canaviais. E, infelizmente, não há como evitar.”

O consultor técnico da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), Cristiano Palavro, confirma que a Helicoverpa armigera tem um alto potencial para atacar a cana, mas acrescenta que ela apresentou preferência por outras culturas. “Inicialmente, essa lagarta prefere o tomate e o algodão e, posteriormente, a soja, feijão, milho e sorgo. Antes da cana, ela vai atacar essas outras culturas”, afirma.

A Helicoverpa armigera já foi identificada na Bahia, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e outros Estados brasileiros. O professor da UFG destaca que as unidades federativas que ainda não confirmaram a presença da lagarta não fizeram o monitoramento adequado. “A amostragem e o monitoramento são extremamente importantes para a identificação dessa praga”, friza.

Procedência e disseminação

A origem da Helicoverpa armigera ainda é desconhecida, mas o consultor da Faeg destaca que ela pode ter vindo da Argentina, já que no país vizinho existe uma lagarta semelhante. Mas ele não descarta a hipótese de que a praga tenha sido inserida no Brasil de outra forma, por meio de plantas ornamentais, por exemplo. “A legislação atual não é rigorosa nesse aspecto”, observa.

Alguns motivos influenciaram o rápido alastramento da Helicoverpa armigera nas regiões onde já foi identificada. Em especial, as condições climáticas favorecem a sua infestação.

Outro fator determinante é a capacidade reprodutiva da praga. Uma fêmea consegue colocar até 1,5 mil ovos em lugares diferenciados e também tem o poder de migrar até mil quilômetros durante seu ciclo de vida. “A lagarta tem uma capacidade adaptativa muito forte”, conta.

Palavro explica que não há certeza de que essa lagarta se introduza nos canaviais, mas se isso acontecer o controle dela será realizado da mesma forma como é feito com outras espécies.

O mais indicado, segundo ele, é o controle biológico, já que o químico tem um custo elevado. Além disso, a lagarta se apresenta resistente aos principais inseticidas conhecidos. Os especialistas indicam o uso da vespa Cotesia flavipes – já usada para conter a broca-da-cana-de-açúcar – e a tricograma, que tenha o Baculovirus. “Existem no Brasil muitos organismos para o controle biológico. Deve-se pensar em uma proteção sistêmica, com o controle químico, biológico e o natural”, propõe Palavro.

Ataques severos da lagarta, sobretudo na soja, foram identificados nos últimos meses, mas é provável que a Helicoverpa armigera já esteja no Brasil há mais tempo. O primeiro registro da Faeg foi em 2009, mas apenas em 2012 calcula-se que essa lagarta gerou um prejuízo de R$ 10 bilhões nas lavouras brasileiras.

Devido a esses prejuízos, várias entidades –públicas e privadas – já se reuniram para discutir o tema, como a Faeg, a UFG, Embrapa e a Casa do Pica-Pau. A última realizou a palestra “Novo manejo de lagartas na cultura da soja, com a chegada da Helicoverpa armigera”, proferida pela professora Jurema Rattes, que é docente da Universidade de Rio Verde (Fesurv) e pesquisadora na área de manejo de pragas em grandes culturas.

Controle preventivo é essencial

Muitas são as doenças e as pragas que atacam os canaviais. E é extremamente importante que o produtor, juntamente com um profissional da área agronômica, conheça cada uma delas a fim de combatê-las o quanto antes para evitar prejuízos econômicos e impactos na produtividade.

Toda praga ou doença se desenvolve quando existem condições propícias de solo, de clima e de altitude. Quando um canavial está em uma localização de alta altitude, por exemplo, há mais intensidade de insolação, regime pluviométrico e frio, fatores que são controles naturais.

Segundo os especialistas, a principal praga da cana é a broca comum (Diatraea saccharalis). Ela também ataca o sorgo e o milho. Segundo o Professor titular da Escola de Agronomia da Universidade Federal de Goiás (UFG), Paulo Marçal Fernandes, essa lagarta penetra no colmo da cana, provoca a quebra da mesma, o peso e a brotação.

O assessor técnico para a área de cana-de-açúcar e biodiesel da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), Alexandro Alves dos Santos, completa que a broca interfere na qualidade e na produtividade, já que essa praga causa danos diretos e indiretos no canavial.

Diretamente, os danos decorrem da alimentação do inseto no colmo da planta, que causa a perda de peso da cana, a abertura de galerias no entrenó, morte da gema apical da planta, encurtamento de entrenó, quebra da mesma, enraizamento aéreo e germinação das gemas laterais.

Mas os danos indiretos são os mais importantes. Com a abertura de galerias fica permitida a entrada de fungos oportunistas, em especial o que causa a “podridão vermelha”, que retira toda a sacarose da cana-de-açúcar, provocando perdas pelo consumo de energia no metabolismo de inversão e faz com que os açúcares resultantes não se cristalizarem no processo industrial.

E quando a cana se destina à produção de álcool o problema é mais grave, pois os microrganismos que penetram no entrenó aberto contaminam o caldo e concorrem com as leveduras na fermentação alcoólica.

O controle da broca é químico e biológico. O primeiro deve ser feito com o uso de inseticidas sistêmicos. Um inimigo natural muito importante e específico da broca-da-cana é a vespa Cotesia flavipes. Esse inseto tem a capacidade de localizar as lagartas através de substâncias presentes nas fezes. Segundo Santos, a distribuição dessas vespas deve ser realizada apenas no momento correto, dependendo da infestação.

Outra praga que afeta a economia dos canaviais é a cigarrinha, Mahanarva fimbriolata. Ela geralmente agride a cana no período pós safra – de 50 a 70 dias após a colheita.

O clima apresenta grande influência na dinâmica populacional dessa praga, pois com o início da estação chuvosa ocorre a eclosão dos ovos, aumentando o número de indivíduos. “O inseto se estabelece com mais pressão entre os meses de novembro e fevereiro, isto é, no período chuvoso. Chuva e calor são fatores para propagação da cigarrinha”, constata Santos.

Esse inseto faz a sucção de água e nutrientes das raízes das plantas. Ao se alimentar, a praga libera uma saliva tóxica, que provoca necrose nos tecidos foliares e radiculares e prejudica o desenvolvimento da cultura. O controle mais indicado é o químico, por via área.

Outra praga que se destaca é a lagarta elasmo. De acordo com o assessor técnico da Faeg, em 100% dos casos da presença do inseto houve queima. “Mas não é toda área de combustão que a praga aparece”, ressalta.

A lagarta elasmo se desenvolve em solos extremamente secos. Essa praga é de difícil controle e ataca a raiz da planta. Mesmo após a colheita da cana, esse inseto ainda atinge os brotos. Para a contenção, é indicado umidificar o solo. “A terra molhada permite o desenvolvimento de fungos naturais. Em algumas lavouras, localizadas próximas a usinas, é feita a irrigação de salvamento para molhar a terra e reverter o quadro”, menciona.

Doenças

A cana também é susceptível a doenças. O diretor de pesquisa e desenvolvimento da Vignis, Sizuo Matsuoka, destaca os dois tipos de ferrugem e o raquitismo.

As ferrugens – alaranjada ou a marrom – são causadas por um fungo, que viaja pelo ar. Para o desenvolvimento das doenças é necessário umidade. No caso da ferrugem alaranjada, esse fator deve estar associado ao calor. Já a marrom é favorecida por temperaturas mais baixas. Ambas atrapalham a planta a receber insolação e, assim, reduzem a produtividade das lavouras.

Matsuoka salienta que não existem métodos de prevenção para a doença e que o ideal para evitá-la é a seleção de uma espécie de cana resistente. O assessor técnico Alexandro Alves dos Santos explica que o controle profilático com a troca de variedades susceptíveis é de suma importância.

Esporos nas folhas

Na ferrugem, o fungo forma esporos visíveis nas folhas. O ciclo de vida é muito rápido. Em cada semana são formados milhões de esporos. Na fase inicial, eles são minúsculos e só podem ser vistos com a ajuda de lupa.

Para controlar a doença é indicado, na primeira etapa, o uso semanal de fungicida. Mas a aplicação em uma lavoura comercial é onerosa, economicamente inviável.

O raquitismo da soqueira é outra doença que preocupa. Ela não causa sintomas visíveis e agride o colmo da cana, não permitindo a absorção de água e nutrientes. “É como se entupisse os vasos da planta. Durante o período chuvoso, a doença fica menos perceptível e o produtor acredita que a baixa produtividade é um problema da espécie”, exemplifica o diretor da Vignis.

Em todas as doenças citadas o ideal é a renovação do canavial. Mas para Matsuoka, a seleção de mudas é uma dificuldade atual. A mecanização do plantio afetou a germinação e a uniformidade de distribuição, reduzindo a oferta. “No plantio manual, em um hectare se fazia muda para dez, hoje esse número caiu pela metade”, compara.

Cejane Pupulin- Canal-Jornal da Bioenergia

 

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