Entrevista

Avanços na nutrição da cana-de-açúcar

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 Graduado em Engenharia Agronômica pela Escola Superior de Agricultura ‘Luiz de Queiroz’ da Universidade de São Paulo, Claudimir Pedro Penatti é mestre em Agronomia pela Universidade de São Paulo, com área de concentração em Solos e Nutrição de Plantas. Foi pesquisador especialista, depois passando para sênior no Centro de Tecnologia Copersucar (CTC), em Piracicaba (SP), de 1982 a 2001. Mais tarde passou a trabalhar na área de transferência de tecnologia, cobrança de royalties das variedades SP até 2004; a partir daí, no Centro de Tecnologia Canavieira, como gerente regional da Região de Piracicaba, responsável pelas Associações de fornecedores de Cana e do Grupo Cosan (hoje Raízen). Hoje trabalha na área de desenvolvimento de produto, na validação das variedades CTC e na área de Nutriçãso da Cultura da Cana-de-Açúcar.

 Qual o maior desafio na produção do livro recém-lançado, de sua autoria, sobre a adubação da cana-de-açúcar?

Além da compilação de muitos resultados de pesquisas realizadas pela equipe do CTC, mostrar credibilidade nas recomendações e que a cana-de-açúcar não tem sua produtividade alcançada apenas com aplicação de fertilizantes, uma das atividades necessárias para isso.

 Quais são as principais carências nutricionais relacionadas ao cultivo da cana-de-açúcar no Brasil?

Depende do tipo de solo e sua fertilidade natural. Geralmente os solos brasileiros são carentes, principalmente, dos nutrientes fósforo, potássio e micronutrientes e alguns solos apresentam alumínio em suas características químicas, necessitando da correção com calcário e/ou gesso agrícola.

E quanto aos avanços em relação à nutrição da cana obtidos nos últimos anos no Brasil?

Nos anos 80 usava-se pouco calcário e, principalmente, pouco nitrogênio. Hoje as correções de solos com o uso de calcário avançaram muito, inclusive com o uso do gesso agrícola para correções do alumínio no perfil do solo, assim como no aprofundamento do uso de cálcio, magnésio, potássio e enxofre. Outros processos que auxiliaram nessa evolução do setor foram as confecções de tabelas de adubação, o aumento nas doses dos nutrientes nitrogênio, fósforo e potássio tanto em cana planta, como em cana soca e o uso de micronutrientes em solos de baixa fertilidade. Além disso, possíveis correções utilizando-se do avião para aplicação de nutrientes em cana já foram desenvolvidas e a agricultura de precisão está cada vez mais ocupando um espaço importante na racionalizaçãoda adubação.

 A tecnologia disponível para a fixação biológica de nitrogênio já é suficiente para substituir o nitrogênio mineral?

Não. Trabalhos recentes realizados pelo CTC e o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) com as bactérias fixadoras de nitrogênio não apresentaram aumentos de produtividade de cana em relação ao adubo nitrogenado mineral. Em 1997 o CTC iniciou uma pesquisa em casas de vegetação com o uso da bactéria Acetobacter diazotrophicus (capaz de fixar o nitrogênio atmosférico incorporando-o à planta) conseguindo resultado significativo em relação ao nitrogênio mineral. A partir desse trabalho, outros foram conduzidos pelo CTC com esta bactéria, sendo inoculada na planta (colmos) e nas raízes sem resultados significativos em mais de 10 variedades avaliadas. No entanto, existe uma carência de trabalhos com o uso de técnicas adequadas para quantificar a contribuição do processo de fixação biológica de nitrogênio (FBN) nas diversas culturas em condições de áreas comerciais, principalmente nas plantas não leguminosas, como a cana-de-açúcar.

 Como o senhor avalia o uso de resíduos do processamento da cana-de-açúcar como fertilizante para as lavouras?

É melhor considerarmos os resíduos do processamento da cana-de-açúcar como subprodutos da agroindústria energética, pelo fato de serem totalmente utilizados na cultura da cana-de-açúcar, propiciando a reciclagem de nutrientes e melhoria das condições químicas, físicas e biológicas do solo.

O setor sucroenergético tem uma vantagem competitiva comparado às demais empresas produtoras de alimentos e bioenergia: seus subprodutos agroindustriais. A vinhaça, a torta de filtro, as fuligens e cinzas de caldeiras, além de outros subprodutos, são usados na fertilização dos solos e na nutrição da cana-de-açúcar reduzindo consideravelmente os custos com o uso de fertilizantes minerais. Praticamente todo nutriente extraído do solo pela cultura pode retornar ao campo sob a forma de adubação orgânica. O que outrora era visto como um resíduo volumoso e de alta carga poluidora, hoje é tido como fator de sustentabilidade para as empresas. A necessidade de uso dos subprodutos como fertilizantes orgânicos substitutos totais ou parciais dos fertilizantes minerais e com o objetivo de manter ou incrementar a produtividade dos canaviais é indiscutível.

 Quais cuidados devem ser tomados com esses resíduos e que danos eles podem causar à cultura e ao meio ambiente, se aplicados em doses excessivas?

Tudo que é usado em doses excessivas pode prejudicar o meio ambiente, inclusive os adubos minerais, por isso que a base de recomendação são as tabelas de adubação obtidas das experimentações de campo e usadas adequadamente.

Hoje, usar doses excessivas de subprodutos é jogar dinheiro fora, pois os custos dos fertilizantes minerais têm evoluído bastante nos últimos anos. Atualmente os subprodutos podem substituir os nutrientes minerais, podendo-se considerar 50% do nitrogênio, 80% do fósforo e praticamente 100% do potássio, isso tudo com aumento de produtividade de cana em relação ao adubo mineral.

Trabalhos conduzidos pelo CTC e outros órgãos de pesquisa com a vinhaça, subproduto mais polêmico, mostraram que, mesmo em altas dosagens, não prejudicaram o meio ambiente. Atualmente, altas dosagens de vinhaça não são aplicadas, pois existe uma fórmula que calcula a dose adequada para cada tipo de solo. O controle dessa aplicação é feita pela Cetesb.

Outra forma de uso que vem sendo praticado pelas usinas é a mistura destes subprodutos, conhecida como compostagem. A maior parte desta compostagem é usada no plantio da cana-de-açúcar e o restante sobre as linhas das soqueiras. Uma usina da região de Piracicaba já está usando subprodutos ou fertilizantes orgânicos como fontes dos nutrientes essências para a planta em 100% das áreas com cana-de-açúcar.

 A adubação foliar apresenta relação custo/benefício favorável?

Atualmente muito se tem comentado a respeito da adubação aérea com a aplicação de adubo líquido (foliar) ou na forma sólida em cana-de-açúcar com a expectativa de se obter aumento na produtividade, tanto da cana planta como da cana soca. A base da adubação foliar é o nitrogênio, ou nitrogênio e molibdênio, atualmente com ou sem a adição de outros micronutrientes. A adubação mineral sólida é principalmente com o nitrogênio, via as fontes nitrogenadas ureia ou nitrato de amônio e raramente com potássio via cloreto de potássio.

Para pequenos, médios e grandes produtores esta operação não se viabiliza se as adubações de base (solo) foram realizadas de acordo com as análises químicas de terra e uso de tabelas de recomendação de adubação.

Relatos de algumas usinas indicam ganhos entre 4 a 6 toneladas de cana por hectare com a aplicação de ureia por meio de avião em cana comercial em estádios de cortes menos avançados e com potencial de resposta, neste caso, favorável. Atualmente esta prática vem sendo utilizada por algumas usinas, principalmente em áreas de viveiros de mudas e em anos em que o canavial comercial não se desenvolveu adequadamente, fruto do clima.

 Como uma boa nutrição pode tornar a lavoura mais resistente a pragas e doenças?

Da mesma maneira que o organismo humano. Se bem nutrido, mostra mais resistência às doenças. Determinados nutrientes aumentam a dureza da casca ou aumentam a porcentagem de fibra na cana, promovendo resistência ao ataque da broca da cana-de açúcar, como foi observado com a presença do silício na planta.

 Como o senhor avalia a relação da produtividade média dos canaviais brasileiros com a prática de adubação usada no País, em termos gerais?

Boa parte das usinas utiliza adequadamente os fertilizantes e mantêm produtividades médias elevadas, desde que se tenha uma boa condição climática. Mas em épocas de crise há redução de gastos e esta é sempre direcionada aos fertilizantes, com isto prejudicando a produtividade da cana. Trabalhos conduzidos pelo CTC indicam que boa parte de usinas tem a produtividade média menor do que a potencial, o que se deve, em parte, pelo uso baixo de fertilizantes, entre outros fatores.

Quais os maiores desafios relacionados à produção de cana com elevados índices de produtividade em novas fronteiras de cultivo, a exemplo da região do Cerrado?

Um dos grandes desafios é desenvolver variedades adaptadas para estas condições, pois tratam-se de solos de baixa fertilidade e áreas de pastagens degradadas, além da necessidade de capacitação da mão de obra para esse novo desafio. Devido a esta baixa fertilidade, os solos do Cerrado têm baixo potencial de produtividade e, se não corrigidos adequadamente, não é viável o seu uso para a produção de cana-de-açúcar. Outro problema nessa região é a deficiência hídrica (falta de água), fator importantíssimo de redução de produtividade. Algumas usinas vêm utilizando a irrigação com água ou a fertirrigação com vinhaça como salvamento ou como irrigação plena para aumento da produtividade de cana.

Quanto à fertilidade, o uso de calcário e gesso são imprescindíveis para a correção da acidez do solo e do alumínio tóxico, possibilitando assim melhor aproveitamento dos nutrientes aplicados. Em solos mais arenosos há necessidade da fosfatagem para correção dos baixos teores de fósforo.

Outro fator importante também é o plantio adequado de variedades. O Centro de Tecnologia Canavieira lançou em 2012 a geração 9.000, três variedades adequadas para o Cerrado e clima restritivo. Num futuro próximo, as instituições de pesquisa em melhoramento genético de cana poderão liberar variedades transgênicas adaptadas para a condição de Cerrado.

 O que muda nas exigências nutricionais das plantas com o fim da queima dos canaviais?

As exigências nutricionais praticamente são as mesmas, vão mudar de acordo com o sistema adotado, se a palha fica sobre o solo ou se é recolhida para a cogeração de energia. Com a presença da palha, há um enriquecimento de nutrientes no solo e de matéria orgânica no decorrer dos anos. O potássio, como não faz parte da estrutura da palha, é disponibilizado quase que totalmente no ano. Com isto, substitui parte do potássio mineral.

Os nutrientes da palha tornam-se disponíveis à cultura por ação dos microorganismos do solo, por meio do processo de mineralização. A mineralização é afetada pela temperatura, disponibilidade de água e de oxigênio, da composição química do material, em especial a relação carbono/nitrogênio (C:N), teores de lignina, celulose, hemicelulose e polifenois. Esta relação alta exige maior quantidade de nitrogênio.

A quantidade de palha que fica sobre o solo varia de 10 a 20 t/ha de matéria seca Ela é composta, em sua maior parte, de folhas secas, seguida de folhas verdes e de ponteiros (palmito). A palha é composta, principalmente, dos macronutrientes nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio, magnésio e enxofre.

Quais os maiores desafios, em relação à nutrição, com a adoção do sistema de plantio direto também na cana-de-açúcar?

O sistema de plantio direto em cana, em que não se faz nenhuma operação agrícola no preparo do solo, ainda não é uma realidade, pois poucas áreas são plantadas desta forma. O que se tem adotado é o preparo reduzido antes de plantio, ou seja, o mínimo de operações de preparo do solo, fazendo o uso de herbicidas para a eliminação química das soqueiras, correção do solo, depois a subsolagem e em seguida a sulcação para o plantio.

Assim como em outras culturas, como o milho e a soja, a cana pode ser manejada no sistema de plantio direto, fazendo as devidas correções em superfície e dentro do sulco de plantio, utilizando a fonte nitrogenada preferencialmente não volátil. A correção do solo pode ser feita parcialmente ao longo dos cortes, onde se aplica calcário e gesso na soqueira. As atividades biológicas e morte do sistema radicular vão formando canalículos que facilitam a penetração destes nutrientes para maiores profundidades.

Para o plantio direto, as áreas devem estar livres de plantas daninhas, pragas e compactação. Normalmente é realizado em solos arenosos e muito arenosos com o objetivo da conservação do solo.

 Como o senhor avalia a utilização do calcário na cultura da cana, especialmente em solos de Cerrado?

Na maioria dos solos com cana, há a necessidade do uso de calcário na reforma do canavial e mesmo em soqueira. Quanto aos solos de Cerrado, não é possível produzir cana sem o seu uso que, juntamente com o gesso, são fundamentais para a melhoria das características químicas destes. Existem fórmulas adequadas de recomendação de calagem e gessagem em que se procura a melhoria da condição química do solo até uma profundidade de 40 a 50 cm. Em muitos casos, a agricultura de precisão, para uma racionalização do seu uso e melhor distribuição, já vem sendo utilizada. Em especial, nos solos de Cerrado, a aplicação de calcário e gesso é quem vai ditar a garantia de produção de cana, corrigindo a falta de cálcio e a correção do alumínio tóxico.

 Quais são as vantagens e indicações do gesso agrícola na cultura da cana?

O gesso como subproduto da fabricação do ácido fosfórico veio para complementar a ação do calcário, corrigindo todo o perfil do solo e aprofundando os nutrientes cálcio, magnésio, potássio e enxofre, conseguindo a eliminação do efeito tóxico do alumínio quando presente.

Suas vantagens são: fonte de cálcio e enxofre, aumento do sistema radicular, redução da toxidez de alumínio, correção de solos sódicos, redução da salinidade do solo ou do adubo e das perdas de nitrogênio na fermentação do esterco ou compostagem.

 Quais práticas contribuem para a criação e manutenção de um bom equilíbrio biológico do solo?

Toda e qualquer ação no solo, para sua correção e conservação, cria condição de um bom equilíbrio biológico. A agricultura sustentável, produtiva e ambientalmente equilibrada tem como apoio as práticas de um preparo conservacionista de solo, aplicação de calcário, gesso, fosfatagem quando necessária, uso de subprodutos (vinhaça, torta de filtro, fuligem, cama de frango e esterco) e principalmente a rotação de culturas ou adubação verde, além do controle biológico de pragas. Neste processo biológico solo-planta tem-se como base a ação de microrganismos e pequenos invertebrados

Como esse equilíbrio favorece as plantas?

Criando uma condição favorável para aumentar o sistema radicular e assim aumentar a extração de água e de nutrientes necessários para o desenvolvimento.

 Quais as funções dos bioestimulantes e a amplitude do uso desse recurso nas lavouras de cana no Brasil?

Bioestimulantes são produtos não nutricionais que podem reduzir o uso de fertilizantes e aumentar a produção e a resistência aos estresses causados por temperatura e déficit hídrico. Os componentes principais dos bioestimulantes comercialmente disponíveis podem incluir materiais húmicos (ácidos húmicos e ácidos fúlvicos), hormônios de crescimento de plantas, vitaminas e vários outros elementos.

Alguns bioestimulantes podem agir no sistema radicular, aumentando o seu volume no solo, outros nas gemas das mudas, estimulando a sua brotação e, se estiverem juntos, em ambos os casos.

Com a evolução do plantio mecanizado, esses produtos serão bem vindos, assim como em novos sistemas de plantios que estão surgindo.

 Quais os benefícios da rotação de culturas para a cana-de-açúcar?

Geralmente, a soja e amendoim são as culturas mais utilizadas para a rotação com cana na reforma do canavial. Outras culturas, conhecidas como adubo verde, podem aparecer, como a Crotalária spectábilis, girassol, guandu, mucuna anã, mucuna preta, lablabe e feijão-de-porco.

Em áreas de rotação de culturas há um favorecimento da mineralização da massa seca da cultura deixada sobre o solo, pelo fato de se ter uma baixa relação C:N. Com isto, disponibiliza o nitrogênio para a planta, possibilitando a redução da dose deste na forma mineral. Outros benefícios desta prática são a melhoria das condições físicas, químicas e biológicas no solo; reciclagem de nutrientes; conservação de solo; diminuição do desenvolvimento de plantas daninhas; auxílio à estruturação do solo; aumento da retenção de água; aumento da retenção de nutrientes por meio da elevação da CTC (capacidade de troca de cátions) do solo, absorção de nutrientes das camadas mais profundas do solo trazendo-os para a camada superficial; aumento da matéria orgânica; aumento da diversidade e atividade microbiana; melhoria da eficiência de fertilizantes minerais; quebra no ciclo de pragas e doenças, reduzindo a incidência destas e controle de determinadas espécies de nematoides.

 Entrevista concedida ao jornalista Evandro Bittencourt, do Canal-Jornal da Bioenergia

 

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