Entrevista

Manoel Vicente Bertone -Presidente-Executivo do Biomass Energy Research Institute (Benri).

manoel download Quais as perspectivas para 2014 em relação ao setor sucroenergético?

 Estou bastante otimista em relação ao setor neste ano. Primeiro porque a produção não vai mais crescer tanto quanto cresceu agora. Nós vamos chegar a um momento de estabilização de produção muito provavelmente e vamos chegar também num momento em que o consumo de etanol deve se recuperar, favorecendo um ajuste no mercado de açúcar. Eu, particularmente, considero que o País, pelas políticas econômicas que adotou, vai ter que enfrentar com mais determinação a questão da defasagem cambial, ou seja, vamos ter uma recuperação do câmbio e, consequentemente, é muito provável que vamos ter também uma abertura de competitividade do etanol em relação à gasolina, pois não fará sentido o governo deixar crescer tanto, por tanto tempo, essa defasagem da gasolina brasileira em relação à gasolina internacional.

 E nos anos seguintes, quais os cenários já podem ser vislumbrados?

 Além de 2014 percebemos um horizonte ainda mais favorável para o setor sucroenergético. A gente sabe que o sistema de cotas na Europa deve ser extinto em 2017, aproximadamente, e nós sabemos da nossa competitividade e da importância social do setor sucroenergético para o Brasil, favorecendo o desenvolvimento regional, a distribuição de renda; sabemos da eficiência que temos, da disponibilidade de terras e da tecnologia aplicada, de modo que eu acredito, firmemente, que em 2014, 2015 nós vamos observar uma mudança de orientação governamental. Eu não faço críticas pessoais aos governos que não apoiaram o setor em outros momentos e ao próprio governo do PT. No governo Lula houve um apoio fantástico ao setor, mas no governo da presidente Dilma houve uma resistência muito grande ao desenvolvimento do setor que, eu acredito, vai se reverter pela clara demonstração dos benefícios que esse setor traz para a economia brasileira e para a sociedade brasileira. Defender o etanol é defender a soberania nacional, a segurança energética. Eu e toda a equipe da Consultoria Datagro e da Fermentec, que são os construtores da Benri, a empresa que eu dirijo, acreditamos firmemente que termos bons tempos à frente.

 E como o senhor avalia o atual ambiente regulatório e como ele pode ser aperfeiçoado para favorecer novos investimentos no setor?

 Esse é um dos temas mais sensíveis. A insegurança jurídica, tributária, essa insegurança burocrática, por assim dizer, reina no setor privado brasileiro e não apenas no setor sucroenergético. Nesse País, portarias viram leis e fiscais viram agentes de polícia. Muitas usinas recebem fiscalização com gente armada de metralhadora, quando o assunto não é para tanto, e isso tudo nos preocupa. O ambiente regulatório brasileiro tem de se desenvolver, caso contrário o Brasil não estará à altura do que as pessoas de outros países enxergam aqui. Toda essa visão maravilhosa que se tem no Brasil vai acabar se esvaindo, porque hoje o investidor internacional, que acreditou e pôs o seu dinheiro aqui, está querendo ir embora, parar de investir em determinados setores, justamente por causa do ambiente regulatório. Acredito que a democracia brasileira está se consolidando e dessas disfunções que temos visto, como a corrupção, o excesso de regulação e de ideologismo na determinação de alguns procedimentos, a sociedade brasileira precisa entender que precisamos de mais racionalidade. Se não for assim, logo vai faltar luz na casa de cada um porque o País não pode mais construir hidrelétricas. Nada é mais importante do que a qualidade de vida do ser humano. E de nada adianta todo o apoio dos programas sociais se isso não vier acompanhado de um desenvolvimento de infraestrutura que exige licenciamentos do Ibama, de terras. De nada adianta toda a rede de amparo social se ela não vier acompanhada da possibilidade do desenvolvimento pessoal, da dignidade pelo trabalho. Acredito que o brasileiro vai enxergar isso com muita rapidez e nós vamos evoluir para um patamar melhor do que nós estamos hoje.

 E o senhor vê evolução nesse patamar nos últimos anos?

 Não estamos num patamar muito ruim, ele já foi pior. Eu prefiro um país com amplo apoio social do que um país que baseia a sua competitividade na miséria. Na cafeicultura, por exemplo, um dos setores que eu mais trabalhei e onde fui representante de classe por muitos anos, como presidente do Conselho Nacional do Café, a gente sempre dizia isso. Em relação ao apoio social o Brasil melhorou muito e eu me sinto orgulhoso de ter participado disso, tendo integrado o governo durante cinco anos. Eu apenas não posso aceitar que o setor produtivo tenha que investir sem rentabilidade, isso não existe. Ninguém vai investir porque há dinheiro disponível para isso, as pessoas vão investir se for possível ver que o resultado será um lucro que possibilite pagar o financiamento. Acho que a sociedade brasileira está amadurecendo e não vai cometer, de forma nenhuma, os erros que estão cometendo Argentina, Bolívia e Venezuela. Vejo que vamos mais por caminhos como os do México, do Peru, do Canadá e de países que se desenvolveram bem. Eu diria até caminhos como o da China, país comunista, mas que adota, no capitalismo, um grande modelo de desenvolvimento.

 E o que o setor sucroenergético pode fazer para recuperar sua rentabilidade, capacidade e segurança para voltar a investir?

 Eu sou defensor da busca de maior eficiência. Eu dirijo uma empresa que visa, justamente, medir a eficiência das empresas. É com surpresa que a gente via que muitas empresas, que se consideravam eficientes, puderam perceber que tinha muito ainda a caminhar. As usinas trocam informações sobre produção e investimentos, por exemplo, mas não procuram comparar suas eficiências. Eu considero que quando essas eficiências são verificadas de maneira independente e as compara com as do seu setor, isso favorece a melhoria da eficiência média, pois será possível identificar as vulnerabilidades de cada uma das unidades produtoras de açúcar e etanol. Quando isso acontece se vê onde é possível melhorar, identificando setores pontuais na sua indústria que, com pequenos investimentos, têm um alto retorno. Acho que o setor precisa reduzir custos e lutar para que elas sejam reduzidos, também, no que se refere aos aspectos regulatórios, a exemplo da Lei de Balança, que é uma absurdo completo, pois aumentaria os custos de Corte, Transbordo e Transporte (CTC) enormemente.

 Que exemplo o senhor pode dar sobre esse esforço em busca de maior eficiência?

 Podemos ver, examinando as empresas, situações em que há um nível de excelência, empresas que cortam mecanicamente de forma fantástica, com alto nível de produtividade e eficiência, enquanto outras empresas ainda estão lutando para serem eficientes no corte mecanizado. É lógico que isso tem uma curva de aprendizado e ele não cai do céu. E isso acontece com todas as tecnologias novas. Precisamos alcançar o máximo e buscar novas fontes de desenvolvimento, a exemplo de novas variedades de cana-de-açúcar, inclusive as geneticamente modificadas, das quais eu sou um entusiasta, até pelo que vi no mercado da soja, as regiões brasileiras que foram viabilizadas. Tanto que o Brasil é hoje um dos maiores produtores de soja do mundo, com grande volume de variedades melhoradas, entre elas algumas geneticamente modificadas. Ou seja, buscar maior eficiência no campo, inclusive na produção do etanol celulósico. Temos um campo vasto pela frente, um produto nobre cujo valor não está sendo reconhecido pelo governo e pela sociedade brasileira, pois o consumidor nunca vai reconhecer isso individualmente. Ele sempre vai optar por botar no seu carro o combustível que estiver mais barato por quilômetro rodado. Quem tem que expressar esse reconhecimento é o governo federal, pois ele sabe os benefícios para a saúde e para o meio ambiente que o etanol proporciona. Se não for, assim continuaremos a consumir aromáticos, como já consumimos chumbo na gasolina, que causam câncer na população. E esse é um problema real que o México, por exemplo, está vivendo.

 E quanto às questões que não dependem diretamente do setor?

 É preciso que sejam resolvidas por meio da união e do apoio às suas entidades representativas, como os sindicatos, o Fórum Nacional Sucroenergético e a Unica, tendo uma interlocução responsável com o governo federal e lutando, também, pelo poder político, sem medo que pensem que, ali, se luta pelo lucro. Ali se luta pelo desenvolvimento nacional e pela melhoria da qualidade de vida das regiões produtoras de açúcar e etanol no Brasil. Precisamos ter consciência e confiança de que, quando se luta por um setor produtivo, não é pelos empresários e pelo lucro e sim pelo desenvolvimento nacional.

 Manoel Vicente F. Bertone – CEO do Biomass Energy Research Institute (Benri)

 Entrevista concedida ao Canal-Jornal da Bioenergia

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