Entrevista

Thadeu Silva- INTL FC Stone 

- Foto entrevistaThadeu da Silva é diretor em Inteligência de Mercado da INTL FC Stone do Brasil. Graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e mestre em Teoria Econômica pela mesma Universidade.

Atua principalmente nos temas commodities agrícolas, açúcar e etanol, grãos, soja e milho, gerenciamento de riscos, economia evolucionária, sistemas de inovação, sistemas setoriais, economia industrial.

 A produção de milho no Brasil vem crescendo nos últimos anos e gerando significativo excedente, que é exportado. Como a produção do etanol de milho pode, ao absorver parte deste excedente, agregar valor ao produto?

 A produção de milho no Brasil apresentou um forte crescimento nas últimas duas safras, quando saímos de uma produção de 57 milhões de toneladas na safra 2010/2011 para 81,5 na safra 2012/13, um aumento de 43%. Essa expansão foi em grande parte decorrente da forte quebra de safra ocorrida nos EUA, que elevou a cotação do grão em Chicago da casa dos 6 dólares por bushel em meados de 2012 para perto dos 8 dólares no final desse ano e início de 2013.

Isso permitiu ao Brasil exportar milho com competitividade. Entretanto, as cotações apresentaram recuo contínuo desde então e, nesse momento, estão na casa dos 4 dólares por bushel, valor que dificulta muito a exportação de milho pelo Brasil em razão do elevado custo logístico envolvido no escoamento do cereal das principais regiões produtoras.

 A atual previsão da INTL FCStone é de que o Brasil irá produzir 71,49 milhões de toneladas na atual safra, representando um recuo de 11,66% em relação ao ciclo anterior. Esse é um reflexo direto do atual momento dos preços e da dificuldade do Brasil exportar esse produto, que apresenta grande dependência dos custos logísticos para competir, por exemplo, com a produção americana. Duas conclusões podem ser tiradas do que ocorreu nos últimos dois anos: a primeira é que o Brasil pode aumentar com grande facilidade a produção de milho, principalmente por ser uma cultura que se desenvolve em conjunto com a soja em grande parte do Centro Oeste. A segunda é que ainda não há fonte de demanda regular para fazer frente à capacidade potencial de produção de milho no Brasil. O mercado externo é uma opção efêmera e com forte variação de apetite.

Nesse sentido, a produção de etanol a partir de milho poderia ser essa fonte segura de demanda que sustentaria a expansão da produção de milho em áreas agrícolas de boa produtividade durante a entressafra de soja. Isso seria uma solução que aumentaria a renda dos produtores de grãos, dinamizaria a economia de diversas regiões e reduziria a demanda brasileira por importação de combustíveis que vem crescendo constantemente nos últimos anos.

 Quantas usinas já produzem etanol de milho no Brasil e em quais Estados estão localizadas? Há outras em construção ou planejadas?

 Existem duas usinas produzindo etanol de milho no Estado do Mato Grosso e diversos outros projetos em diferentes fases de implementação. Os projetos estão predominantemente localizados nos Estados de Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul.

A produção de etanol de milho, se adotada por um número considerável de usinas, teria amplitude para criar uma nova cadeia produtiva no agronegócio brasileiro?

 O etanol de milho não geraria uma cadeia produtiva específica. Ele pode estar inserido na agroindústria dos grãos ou na indústria sucroenergética.

No caso da abertura de uma usina de produção exclusiva de etanol de milho, o empreendimento estaria totalmente integrado à cadeia de grãos. Os produtores de soja e milho são em sua esmagadora maioria os mesmos. Os agentes que atuam na comercialização e beneficiamento de soja e milho (tradings, revendas, esmagadoras de soja etc) são os grandes interessados nesse tipo de usina devido às fortes sinergias que a atividade apresenta com suas estruturas logísticas, comerciais, ciclo financeiro e redes de contatos. Até mesmo o principal subproduto da produção após o etanol – o DDG – seria comercializado no atual mercado de farelo de soja. Nesse sentido, seria um fator dinamizador que viria a fortalecer uma cadeia já em operação.

Outra opção com grande viabilidade é o uso do milho para a produção de etanol pelas usinas de cana na entressafra. Boa parte do processamento do milho pode ser feito com a mesma estrutura utilizada para a cana, cabendo algumas alterações na planta. Nesse caso, o etanol de milho seria uma forma de aumentar a rentabilidade das usinas de cana reduzindo a ociosidade da sua estrutura produtiva. Além disso, apesar de não vermos a criação de uma nova cadeia produtiva, haveria uma integração entre a de grãos e a sucroalcooleira.

 Quais subprodutos desse processamento seriam adicionados ao mercado?

 Além do etanol, para cada tonelada de milho utilizada, há a produção de cerca de 240 quilos de DDG, um concentrado de partes sólidas de milho com elevado conteúdo de proteína e nutrientes com boa demanda no mercado de rações. Além disso, é possível também a produção de óleo de milho, a depender do processo industrial adotado.

 Quais afinidades e pontos de sinergia são possíveis estabelecer entre o etanol de cana, de sorgo e de milho?

 Um ponto importante a ser destacado é que a produção de etanol de milho não deve ser vista como uma rival do produto obtido a partir da cana. Essa é muito mais uma opção para atender demandas regionais e complementar a oferta na entressafra. O cenário atual é de aprofundamento no déficit brasileiro de combustíveis, com aumento da importação de gasolina pela Petrobras. A demanda brasileira por combustíveis do ciclo Otto, etanol e gasolina, vem há uma década crescendo a uma taxa média de 7,25% ao ano. Enquanto isso, a produção doméstica de gasolina tem um cenário de expansão bastante lenta nos próximos anos. Com isso, não somente há espaço como é altamente desejável para o Brasil que ocorra a introdução da produção de etanol de milho e uma considerável expansão na oferta de etanol de cana. Dentro do setor sucroenergético, o milho seria uma opção para a entressafra. A usina aproveitaria boa parte da estrutura produtiva, de armazenagem e de comercialização de etanol e necessitaria desenvolver uma estratégia de originação de milho e comercialização de DDG. A energia para a produção do etanol de milho viria de um possível excedente de bagaço de cana. Nesse caso, haveria total sinergia entre as duas culturas. O sorgo seria um produto cultivado pela usina nas áreas de reforma de canavial em ciclos curtos de produção, de 3-4 meses. O sorgo biomassa possibilitaria uma integração mais robusta entre as três culturas, resolvendo o grande problema para muitas usinas produzirem etanol de milho – escassez de biomassa. Com o aumento da comercialização do excedente de energia das caldeiras, boa parte das usinas não tem bagaço suficiente para o processo de produção de etanol de milho na entressafra e necessitaria de outras fontes de biomassa. Dessa forma, o sorgo não só proporcionaria a energia para a produção de etanol de milho, como excedentes energéticos para serem comercializados.

 Que adaptações são necessárias para que uma usina sucroenergética passe a produzir também o etanol de milho?

 As adaptações são dependentes da atual estrutura da usina e do processo produtivo que será adotado. Duas fases do processo do milho são distintas do da cana: moagem do milho e liquefação e sacarificação. Nas fases de fermentação e destilação, a necessidade de adaptações é dependente da atual estrutura de produção. É possível que uma usina utilize praticamente a mesma estrutura que usa para o insumo cana, como também pode ser necessária a reestruturação de partes do processo como as dornas e colunas. Além disso, há a necessidade de estruturas de recepção e armazenagem de milho. Em alguns casos é possível aproveitar partes da atual infraestrutura das usinas para a armazenagem do grão.

 Qual o capital (em média) precisa ser investido?

 Como as alterações necessárias dependem muito de cada usina, do processo e tecnologia a serem adotados, o valor do investimento também depende da escala da usina. Além disso, esse é um modelo de negócio em fase inicial de adoção. As empresas de máquinas e equipamentos ainda estão gerando soluções que podem reduzir o número de alterações a serem realizadas. Com o crescimento da demanda por usinas flex e plantas de etanol de milho, a tendência é de que mais empresas passem a oferecer equipamentos e os custos sejam reduzidos. Já vi projetos de destilarias de cana de pequeno porte, modernas e com muitas sinergias no processo produtivo orçados entre R$ 15 a R$20 milhões e outros ao redor de R$ 60 milhões. Cabe ressaltar que em ambos os casos eram projetos. Uma das usinas flex que já está em operação realizou um investimento de cerca de R$ 50 milhões para esmagar 900 toneladas de milho por dia, considerando todas as alterações necessárias.

 Como o senhor avalia a produtividade média do milho no Brasil em relação à da cana-de-açúcar?

 São duas culturas muito distintas, que se desenvolvem em regiões e ciclos produtivos completamente diferentes. Para a produção de etanol, a cana é, de longe, a cultura com maior produtividade por área plantada no mundo. Com o etanol de milho seria muito mais uma oportunidade decorrente do arranjo produtivo da cadeia de grãos. O milho no Brasil tem grande espaço para aumento da produtividade, pois ainda é cultivado, em grande parte, de maneira complementar a outras culturas, sobretudo a soja. Hoje o Brasil apresenta uma produtividade média de 4,5 a 5 toneladas por hectare de milho, enquanto os EUA facilmente chegam a produtividades entre 8 a 9 toneladas por hectare em anos de clima favorável. Mais da metade do milho brasileiro é produzido na safrinha, em um período do ano com menor nível pluviométrico e sem grandes investimentos em insumos. A soja apresenta atualmente remuneração muito superior à do milho e por isso seu cultivo é predominante no verão e o investimento agrícola leva a uma melhor produtividade. Na verdade, o grande potencial de produção de milho no Brasil é decorrente do vazio sanitário da entressafra da soja.

A cana-de-açúcar é também uma cultura com grande potencial de aumento da produtividade. Por acaso, nos últimos anos, a produtividade caiu junto com a contração da capacidade de investimento das usinas em reforma de canaviais.

A produtividade média do Centro-Sul, que já foi bem superior a 80 toneladas por hectare nas últimas duas safras, ficou ao redor de 70 toneladas/ha.

 O milho pode ser considerado uma planta mais avançada que a cana do ponto de vista do melhoramento genético, já que existem variedades transgênicas comerciais disponíveis no mercado já há alguns anos?

 O milho é uma cultura muito mais difundida no mundo do que a cana-de-açúcar.

Enquanto boa parte dos países desenvolvidos, sobretudo EUA, tem grande interesse no desenvolvimento tecnológico da cultura do milho, o Brasil é praticamente o único país que investe no avanço da cana-de-açúcar. Concordo que a cana tem um espaço muito maior para aumento de produtividade em relação ao milho e é provável que nos próximos anos vejamos um grande salto com a introdução das primeiras áreas de cana geneticamente modificada. A produção de etanol de milho nos EUA já passou por avanços importantes de produtividade, no que se refere à conversão do grão em energia? O Brasil poderia se beneficiar desses avanços? Como?

 Certamente, na última década houve um grande avanço no processo produtivo de etanol a partir de cereais. As novas usinas instaladas nos EUA têm produtividade muito superior às que foram instaladas em meados da década passada e o Brasil terá a oportunidade de utilizar as melhores práticas e tecnologias.

 Qual a importância do subproduto DDG (Dried Distillers Grains) no contexto da competitividade do etanol de milho?

 Fundamental. A contribuição exata ainda não pode ser calculada, pois não temos um mercado de DDG no Brasil que nos forneça preço de comparação.Apenas como exercício, considerando que o DDG seja comercializado a um valor semelhante ao milho e adotando que uma tonelada de milho produza 380 litros de etanol e 250 quilos de DDG, no atual patamar de preços de milho e etanol, de 15% a 20% da receita do esmagamento do milho viriam do DDG, a depender da região que estamos analisando.

A produção nacional de milho na safra de inverno e verão (safrinha) é de cerca de 80 milhões de toneladas. Qual a margem de expansão dessa produção em médio prazo?

 A produção de milho no Brasil apresenta um grande espaço para expansão no curto e médio prazo, seja por aumento na produtividade ou na área plantada.

Nos últimos anos, o aumento da produção doméstica do cereal se deu principalmente pela produtividade. Na safra 1991/1992, o Brasil plantou cerca de 14 milhões de hectares de milho para produzir pouco mais de 30 milhões de toneladas. Já na safra 2012/13 foram plantados 15,8 milhões de hectares para uma produção de mais de 81 milhões de toneladas. Considerando que é realizada safrinha de milho em menos de um terço da área plantada de soja e que a produtividade do milho brasileiro ainda é baixa em relação a outros países, há um grande espaço para a ampliação da produção do cereal. O potencial produtivo permite aumentos de pelo menos 20% a 30% na produção para a próxima safra, sem deslocamento de outras culturas. Para encontrarmos valores exatos do potencial produtivo seria necessária uma profunda avaliação de solos e clima. Importante ressaltar que nem toda a área plantada de soja permite o cultivo do milho na safrinha, devido a restrições climáticas.

 Quais as vantagens do milho em relação à cana no que se refere à estocagem, disponibilidade no mercado e transporte do produto?

 Enquanto a cana de açúcar apresenta larga vantagem na eficiência energética para a produção de etanol, o milho tem alguns pontos a favor que o deixam competitivo para a produção do biocombustível: ele pode ser estocado por tempo indeterminado, enquanto a cana necessita ser utilizada em poucas horas após o seu corte – é possível utilizar milho no ano inteiro e sempre há disponibilidade do produto no mercado, sem dependência da proximidade da safra; o grão do milho concentra boa parte do potencial energético e nutritivo que será utilizado no processo, o que facilita o transporte e a armazenagem. O potencial energético da cana está difundido por toda a planta e por isso implica em um transporte de uma massa muito maior para o beneficiamento. Importante ressaltar, mais uma vez, que estamos falando de estratégias complementares das duas culturas para a obtenção de etanol. Não se trata de uma competição entre milho e cana. A cana apresenta maior potencial e o milho pode ser utilizado devido a seu uso complementar nas cadeias produtivas.

 O senhor acredita que a discussão sobre a competição alimentos/combustível pode voltar à tona com o crescimento da produção do etanol de milho no Brasil?

 Não vejo como seria possível chegar a essa conclusão, pois a situação é totalmente diferente da que ocorreu no passado. Quando os EUA decidiram incentivar a produção de etanol de milho há uma década gerou-se uma nova demanda para uma produção já existente, deslocando outros mercados consumidores. No caso atual, estamos discutindo uma fonte de demanda para uma produção potencial que não se sustenta pela ausência de mercado. Exemplo disso é que iremos produzir cerca de nove milhões de toneladas a menos de milho nessa safra em relação a anterior por falta de mercado…

 Estudo da INTL FCStone sobre a viabilidade de produzir etanol de milho concluiu que os Estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Goiás são os mais competitivos para o etanol de milho. Outros Estados também podem produzir o etanol de milho com viabilidade econômica?

O estudo considerou os quatro estados que têm a maior disponibilidade do grão atualmente. Como o milho depende muito dos custos logísticos, esses estados teriam uma maior vantagem na aquisição de insumos. Entretanto, outros estados possuem cotações bastante elevadas para o etanol e conseguiriam produzir com rentabilidade o produto.Além disso, há viabilidade em produzir etanol de milho na entressafra da cana no estado de São Paulo por meio de usinas flex.

 Entrevista concedida ao CANAL -Jornal da Bioenergia

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