Entrevista | Plínio Nastari

2015: ano de transição

Plínio Nastari é mestre e doutoEntrevista - Plinio-Nastari-05r em economia agrícola pela universidade americana, Iowa State University. Nos últimos anos, tem se dedicado à coordenação dos trabalhos de sua equipe na Datagro, com clientes em 41 países. Foi professor na Fundação Getúlio Vargas (FGV), de São Paulo durante 17 anos. Desde 1978, acompanha as diferentes fases do desenvolvimento do setor sucroenergético. Em consultorias para o governo federal, atuou como membro de grupos técnicos em áreas relacionadas ao planejamento energético, mudanças climáticas, desregulamentação, integração e disputas comerciais. Foi o economista responsável pelas disputas envolvendo açúcar, bananas e pneus na Organização Mundial do Comércio (OMC), e etanol na Corte Internacional do Comércio, em Washington.

CANAL: Que avaliação o senhor faz da crise no setor sucroenergético?   O setor sucroenergético continua sendo um dos mais importantes e estratégicos para a economia brasileira. Em maio, o etanol representou 44,2% do consumo de combustíveis do ciclo Otto (gasolina mais etanol), em gasolina equivalente. Embora os EUA estejam produzindo aproximadamente o dobro do volume de etanol do Brasil, em termos relativos o etanol substitui apenas 9,6% do consumo de combustível do ciclo Otto. O efeito multiplicador do setor na economia do interior continua enorme, e não fosse pelo esforço realizado por este setor o Brasil estaria importando volumes absurdos de gasolina, comprometendo ainda mais a balança comercial. Apesar desta importância, o setor continua ameaçado a nível doméstico pela falta de clareza e transparência na definição do preço da gasolina e do estabelecimento de um mecanismo que permita o seu convívio econômico em termos sustentados a médios e longos prazo.

Internacionalmente, o setor também sofre com a competição desleal de outros países produtores que subsidiam suas produções, e consumidores que fecham seus mercados a livre competição.

CANAL: A situação ainda é crítica?  

O ano de 2015 dever ainda ser um ano de transição. Os estoques mundiais de açúcar continuam elevados, e a desaceleração da economia brasileira está diminuindo o ímpeto do consumo de combustíveis e energia elétrica. De outro lado, os custos continuam crescendo, pelo aumento nos salários, e o custo de insumos importantes como os fertilizantes e o diesel. Um indicador da crise é o tamanho do endividamento do setor, estimado atualmente em cerca de 75 bilhões de reais.

CANAL: Há previsão de dias melhores?   Houve progresso em algumas áreas. A eficiência da colheita mecanizada tem evoluído gradualmente, assim como a eficiência global da indústria.

A principal correção foi da taxa de câmbio. Pela importância do Brasil no mercado mundial, o preço do açúcar caiu em dólares. Outros competidores, como Índia e Tailândia, não acompanharam a desvalorização do real, e no médio prazo vão sentir o efeito da perda de competitividade com o Brasil. O real em nível mais realista também obriga que o preço da gasolina precise acompanhar a realidade do mercado, que vai se encarregar de trazer dias melhores. Mas o processo poderia ser menos penoso, e mais eficiente se a política pública para o setor de combustíveis levasse em conta um planejamento melhor.

CANAL: Existe algum caminho que os usineiros devem trilhar para superar essa crise?  

Sim: controlar custos, ter austeridade nos seus gastos e investimentos, recuperar a produtividade agrícola, e tomar decisões estratégicas nas áreas comerciais e na diversificação da atividade.

CANAL: O país enfrenta uma grave crise econômica. O setor sucroenergético também sofre com essa conjuntura?  

Foi muito afetado. Um setor estratégico como é o de açúcar e etanol, que compete com um setor controlado pelo governo, depende de uma visão forte de reconhecimento do seu valor e de interesse no seu desenvolvimento no longo prazo. As crises econômica e política tornam mais difíceis as tomadas de decisões importantes de recuperação de preços.

CANAL: Qual o impacto do aumento da mistura de etanol anidro à gasolina em 2015? E quais outras medidas são importantes para o setor?  

Todo o resto constante, o aumento no consumo de anidro seria de 1,1 bilhão de litros por ano. No entanto, o aumento no consumo de etanol hidratado e a redução do crescimento no consumo de combustível do ciclo Otto podem levar a uma situação em que o consumo de etanol anidro não sofra muita alteração em relação ao ano passado. A competitividade do etanol em relação à gasolina pode melhorar com recuperações adicionais no valor das Contribuições de Intervenção no Domínio Econômico (Cide), que em termos reais só recuperou metade do seu valor real quando começou a ser reduzida em 2008, e alterações no regime de ICMS como as observadas em São Paulo e Minas Gerais.

CANAL: A alta do dólar e os juros elevados representam alguma dificuldade adicional para o setor?  

A desvalorização do real é, a médio e longo prazo, benéfica para o setor, mas a alta dos juros impacta enormemente o setor, em especial devido ao seu nível de endividamento é hoje elevado.

CANAL: O reajuste da gasolina, o aumento da adição de etanol e a volta da Cide ajudam na recuperação do setor?  

Ainda é necessário que ocorram reajustes no preço da gasolina. Na semana de 26 de julho, a defasagem de preço era de 14,3%.

CANAL: O resultado da última safra de cana, que somou 571,34 milhões de toneladas segundo a Unica, foi satisfatório?  

Tendo em vista a intensidade da seca observada em 2014, este número foi uma vitória. Mas poderia ter sido muito melhor. É preciso reconhecer que este volume inclui um contingente importante de impurezas minerais e vegetais. A soma destas impurezas se aproxima de 10% do volume de cana que chega à esteira das usinas e é pago como se fosse cana.

CANAL: As perspectivas da Unica para a safra 2015/2016, que indicam uma moagem de 590 milhões de toneladas, representam a realidade do setor?  

A nossa estimativa de moagem no Centro-Sul é de 591 milhões de toneladas de cana, portanto está alinhado com esta avaliação. Estamos prevendo um mix de produção bem mais alcooleiro este ano.

Cejane Pupulin- Canal-Jornal da Bioenergia

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