Entrevista

Plínio Nastari, presidente da Consultoria Datagro

 

Plinio Nastari 01Plinio Nastari é presidente da Datagro Ltda., a maior empresa brasileira de consultoria em açúcar e álcool, com escritórios em São Paulo, Recife, Santos e New York. Mestre e Ph.D. em economia agrícola pela Iowa State University, durante os anos de 1985 a 1999, foi professor de economia dos programas de Graduação e Pós-graduação (mestrado, doutorado e MBA) da Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas. Organizador de três conferências anuais sobre açúcar e álcool: da Datagro, em São Paulo), da ISO (International Sugar Organization) e Datagro (em Nova Iorque), e da Datagro/UDOP (em Araçatuba, SP).

É membro do Conselho de Administração das empresas TEAG – Terminal de Exportação de Áçúcar do Guarujá Ltda., Usina Moema Açúcar e Álcool Ltda., e Vale do Ivaí S/A Açúcar e Álcool.É palestrante regular de conferências promovidas pela Organização Internacional do Açúcar, Conferência Mundial de Combustíveis, Conselho Mundial de Energia, Banco Mundial, FOLicht e outras organizações internacionais.

*A Frente Parlamentar pela Valorização do Setor Sucroenergético, coordenada pelo Deputado Federal Arnaldo Jardim, com apoio da Unica, já conta com a adesão de mais de 300 deputados. O senhor acredita que essa mobilização pode mudar a atitude do governo em relação às políticas públicas que têm sido cobradas pelo setor?

Plínio- Certamente e talvez essa seja a única forma de fazer com que a sociedade se manifeste de forma eficaz diante do poder executivo, indicando o seu inconformismo em relação às políticas que estão sendo aplicadas para o setor sucroenergético e para a área de combustíveis líquidos em geral. É uma adesão significativa e pluripartidária, não é um movimento isolado. Envolve parlamentares tanto da Câmara quanto do Senado e de todos os partidos importantes do Congresso Nacional.

*Qual debate apresentou maior avanço na edição deste ano da Conferência Internacional Datagro?

Plínio: Eu resalto, primeiro, o importante painel de discussões sobre políticas na área de biocombustível e que permitiu uma discussão bastante franca e reveladora. Acho que ficou transparente qual é a incongruência da política que está sendo praticada para o etanol e a perda de oportunidade que essa política está representando para a sociedade e as perdas que isso gera especificamente para o setor. Ficou bastante claro que o etanol tem um preço de oportunidade que é dado pelo valor de importação da gasolina, que hoje está gravitando em torno de R$ 1,7 a R$ 1,8 por litro, enquanto o anidro está sendo pago ao produtor a R$ 1,2 a R$ 1,3. Anidro que, na verdade, vale mais do que a gasolina, como foi demonstrado nesse mesmo painel pelo representante da Petrobras, Brandão Pereira, que indicou de forma bastante correta e transparente que o retorno da mistura padrão para 25%, a partir de maio, permitiu que a Petrobras adicionasse correntes menos nobres e mais baratas na gasolina que produz, permitindo à empresa ampliar a produção de gasolina, com mais etanol. Essa é a demonstração de que o etanol realmente vale mais do que a gasolina.

*E o que pode ser considerado mais preocupante em relação à política pública aplicada à gasolina?

Plínio: Pela sua alta octanagem, o etanol deveria estar sendo valorizado pelo seu valor de tolueno e não valor de gasolina. A distorção da política é que, ao ter gasolina subsidiada no Brasil, ela força que o etanol seja vendido a um preço abaixo do preço real de mercado da gasolina, que é de R$ 1,7 a R$ 1,8 por litro. Isso está impondo perdas muito grandes para o setor. Desde a safra 2012/2013 nós calculamos essas perdas – pela diferença entre o preço de importação da gasolina e o recebido pelo etanol –, considerando o etanol anidro, em R$ 4,1 bilhões que, se tivessem sido recebidos como receita pelo setor, certamente teriam ajudado a pagar a dívida que tem e a reduzir o nível de exposição em relação aos bancos e estariam estimulado uma outra visão em relação a investimentos no setor.

*A Petrobras anunciou que pretende fazer mudanças na metodologia para ter reajustes automáticos e periódicos dos combustíveis fósseis. Como deve se comportar o mercado de etanol caso isso realmente ocorra?

Essa política de preços está ficando insustentável não só para o setor sucroenergético, mas também para a Petrobras, gerando perdas de valor extraordinárias para todo o setor de energia. Acho que a aplicação dessa nova metodologia terá efeitos muito benéficos, mesmo que ela leve para movimentos de preços para cima ou para baixo. É preferível ter um realismo tarifário a ficar com uma política arbitrária, de voluntarismo, que é uma caixa preta e que não tem explicação. Isso afugenta investimento e qualquer possibilidade de haver planejamento por parte das empresas que estão dispostas a assumir riscos nesse mercado. Essa nova metodologia, portanto, é muito importante, desde que ela seja aplicada de forma correta e transparente.

*Qual é, atualmente, a realidade do etanol de segunda geração e outras novas tecnologias que podem ser agregadas ao setor sucroenergético no Brasil?

No painel sobre tecnologias da Conferência Datagro discutimos essa realidade e foi apresentado que ele deverá ser produzido em condições de mercado a partir do primeiro trimestre de 2014. Discutimos também a importância de tecnologias na área de controle industrial, que podem permitir avanços adicionais de rendimento industrial. Outro painel muito importante que abordamos foi sobre a oportunidade da biodigestão de resíduos, um potencial enorme que se abre no setor sucroenergético, tanto para a geração elétrica quanto para a produção de biometano para substituir óleo diesel, reduzindo ainda mais a pegada de carbono do setor sucroenergético e que vai gerar mais valor em mercados que estão precificando e valorizando a intensidade de carbono dos combustíveis, como é o caso de Estados dos EUA, a exemplo da Califórnia, Nova York, Connecticut e países da União Europeia.

*Quais empresas estão à frente no processo de produção do etanol celulósico e qual a situação do Brasil em relação a outros países?

São duas, a GranBio e a Raízen. E eu diria que hoje o Brasil está mais avançado na aplicação da tecnologia que também foi desenvolvida nos Estados Unidos e na Europa. O fato é que hoje o problema não é mais a tecnologia e sim a solução da economicidade da coleta da matéria-prima. A cana-de-açúcar, pelo volume de biomassa que gera, nas avaliações técnicas que têm sido feitas, é que permite a aplicação dessa tecnologia de forma mais econômica e mais imediata. A escala pela qual será produzido o etanol de segunda geração no Brasil, já a partir de 2014, vai superar em muito qualquer outra iniciativa, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa.

*E como deve ficar o custo de produção do etanol celulósico em relação ao etanol de primeira geração?

As indicações das empresas que estão fazendo investimentos nessa área são de que, num primeiro momento, até por causa da curva de aprendizado, o etanol de primeira geração poderá até ter um custo maior que o de primeira, mas em pouco tempo deve se igualar ou até ter um custo mais baixo, contribuindo, inclusive, para o aumento de economicidade do conjunto da produção, inclusive do etanol de primeira geração. Ele vai complementar o de primeira geração e gerar mais energia útil comercializável a partir da mesma base de produção agrícola. Isto vai fazer com que a distribuição do custo da cana se dê por um volume de produto final maior.

*A cadeia produtiva do etanol, incluindo as indústrias de base e de prestação de serviços para o setor sucroenergético, como o de Sertãzinho, pode encontrar na exploração em grande escala do petróleo do pré-sal uma oportunidade de demanda capaz de impulsionar esses segmentos?

Sem dúvida. O etanol não substitui o petróleo integralmente, é um complemento na matriz de combustíveis. Com a exploração do pré- sal o Brasil tende a ser um exportador líquido de petróleo e derivados. O mundo está querendo gasolina mais limpa, que tenha baixos teores de aromáticos e alta octanagem. Isso é o que a indústria automobilística busca, em particular em motores de mais baixa cilindrada e equipados com tecnologia turbo. O etanol oferece isso, portanto serão abertas oportunidades enormes para que o Brasil exporte gasolina já com álcool para uma série de mercados.

*O que o setor sucroenergético já está fazendo e ainda pode fazer para aumentar sua lucratividade na produção de etanol e açúcar?

O setor está fazendo um trabalho muito forte de redução de custos, pelo que temos levantado, forçado pela própria crise, e de luta incansável em busca de ganhos de produtividade agroindustrial. Esses ganhos estão ocorrendo mais cedo do que nós imaginávamos. Estávamos prevendo que a recuperação da produtividade nos níveis pré-crise levaria de 3 a 4 anos, mas ela ocorreu em 2 anos. E existe a perspectiva do rendimento agroindustrial passar de 7,1 mil litros de etanol por hectare para 12,9 mil litros por hectare até o final desta década, podendo chegar a até mais de 30 mil litros por hectare em 2035. É isso que vai continuar permitindo ganhos de competitividade adicionais nos próximos anos. Isso permite reduções de custos que têm sido repassadas para o mercado, beneficiando o consumidor.

*Em Goiás, o governo do Estado e o setor sucroenergético estudam a implantação de tecnologia espanhola para a produção de energia solar, visando, principalmente, suprir as indústrias na entressafra e exportar o excedente. O senhor acredita que esse tipo de diversificação de fontes renováveis pode ser interessante para o setor também em nível nacional?

Essa é uma tecnologia que ainda é cara no mundo inteiro. Ela só não é cara na China, onde há um subsídio implícito muito grande. E é uma tecnologia que tem aplicações muito interessantes para uso industrial, aquecimento de água, etc. Mas a tecnologia alternativa mais interessante para a geração de eletricidade em larga escala no Brasil, nesse momento, é a energia de biomassa, principalmente a de cana, porque ela complementa perfeitamente o perfil de geração do parque hidráulico do Brasil. É muito interessante como existe uma complementaridade quase que perfeita entre o potencial de geração de energia elétrica de biomassa de cana, por causa da safra de cana ocorrer no período seco, e o perfil de geração do parque hidráulico. O Brasil deveria apostar, quase que no limite do seu potencial, na geração de energia elétrica a partir do bagaço de cana, tanto pela queima do bagaço quanto pela queima de biogás gerado pela biodigestão desses resíduos, que é uma forma mais eficiente de se fazer isso.

*Quais as perspectivas em relação à bioeletricidade a partir da biomassa no Brasil da forma como está estabelecido o mercado atualmente?

É preciso que haja leilões específicos para a energia elétrica de biomassa, porque ela é tão diferenciada e tem características tão próprias e positivas pela sua capacidade de complementação, que deveria merecer leilões específicos. E eu acho que um grande programa de estímulo e de promoção para o desenvolvimento dessa rota de geração elétrica deveria indicar uma remuneração que viabilizasse investimentos. E essa tarifa hoje está em torno de R$ 200,00 por megawatt/h, o que é muito menos que os R$ 1 mil por megawatt/h que a sociedade brasileira está pagando nas térmicas emergenciais exatamente para suprir essa falta de energia que está ocorrendo.

*O setor poder tirar lições dos recentes casos de incêndios em armazéns de açúcar ou foram apenas fatalidades?

Infelizmente, foram duas fatalidades coincidentes pela proximidade no tempo em que ocorreram. O terminal da Copersucar no Porto de Santos é o mais moderno de granel – e em breve estará operando novamente. Eu estive na sua inauguração, no mês de junho, e não há outro no mundo com a tecnologia e o investimento que ali foram feitos. O incêndio deveu-se pela característica explosiva das micropartículas de açúcar em suspensão. Em relação ao caso da Santa Adélia, no interior de São Paulo, talvez seja um dos grupos mais cuidadosos do ponto de vista técnico e de operação industrial e agrícola do setor sucroenergético brasileiro. Desde que as exportações foram privatizadas, em 1991, não tinha ocorrido praticamente nenhum histórico de acidente parecido.

 Entrevista concedida ao Canal-Jornal da Bioenergia.

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