Opinião

Perspectivas para o mercado de açúcar

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No começo deste ano, a perspectiva de uma nova quebra de safra de cana-de-açúcar no Centro-Sul brasileiro já sondava o mercado sucroalcooleiro. A UNICA, em sua primeira estimativa (final de abril), projetou uma redução da moagem para 580 milhões de toneladas de cana, 2,84% a menos que a safra 2013/14, finalizada a aproximadamente 597 milhões. Desde então o clima nas principais regiões produtivas continuou castigando o desenvolvimento do canavial, o qual sofreu com altas temperaturas e ausência de água, causando, assim, estimativas de quebra mais acentuadas daquela até então estimada pela instituição. Contudo, apesar da baixa pluviometria não auxiliar no desenvolvimento do canavial no começo do ano, o clima seco favorece, no curto- prazo, a aceleração da moagem e o avanço da produção. Comparativamente à safra passada, mensurando- se até a primeira quinzena de julho, o avanço encontra-se em: 8,26% na moagem, 13,41% no açúcar e 8,51% no etanol total (até então últimos dados de acompanhamento de safra disponíveis pela UNICA). Desse modo, percebe-se a oferta de açúcar mais acentuada no mercado internacional, concomitantemente com a disponibilidade advinda de Tailândia e América Central e os sucessivos superávits mundiais de produto nos últimos ciclos (estoques agora sendo consumidos), e, todos esses fatores juntos, contribuíram para a pressão baixista aos preços de bolsa (ICE-NY Açúcar #11) negociados neste curto-prazo. Dois outros pontos importantes que auxiliam nessa pressão foram a liquidação de posições compradas dos fundos especulativos (direcionam o mercado com o alto volume de negociação) e o baixo ímpeto da demanda no mercado físico. Quanto a este último, destacam-se os baixos prêmios (descontos, na verdade) de exportação (ao redor de -65 e -35 pontos sobre NY, respectivamente no Centro-Sul do Brasil e Tailândia), os quais tornam-se uma evidência da dificuldade em se colocar o produto físico no mercado, necessitando de desconto para atrair a reprimida demanda. No entanto, o movimento de queda dos preços no curto-prazo apresenta-se próximo de um momento de inversão. Apesar da aceleração da safra do Centro-Sul, é preocupante o quanto o clima excessivamente seco tem causado queda no rendimento agrícola (tonelada de cana por hectare em torno de 6% abaixo da safra passada), fator que poderá trazer uma finalização antecipada da moagem em muitas regiões e extensão do período de entressafra, aumentando assim o período de oferta mais restrita. Ainda soma-se a isso as monções menos intensas (24% abaixo da média) na Índia, segundo maior produtor, e a escassez de chuvas desde maio na Tailândia, segundo maior exportador. Para estes países, o aumento de produção até então estimado para a safra 2014/15 (out/14 a set/15) poderá não se concretizar, reduzindo assim a oferta internacional de açúcar. Ainda, se juntarmos a esta perspectiva de menor oferta de importantes players a crescente demanda internacional de açúcar, a qual cresce a taxas anuais de aproximadamente 2,35% ao ano devido, principalmente, ao crescimento populacional e ascensão das classes sociais mais baixas (passam a consumir mais açúcar per capita), poderemos nos atentar para uma perspectiva de longo prazo que aponta para um mercado com déficit no próximo balanço internacional de açúcar (demanda maior que a oferta), causando redução dos estoques atuais e impactando de forma altista os preços do açúcar, o que resultaria numa perspectiva mais otimista e construtiva para os produtores da commodity.

Murilo F. Aguiar é Consultor em Gerenciamento de Risco – Açúcar & Etanol da da INTL FCStone