Opinião

Mudança no cenário político pode favorecer o setor 

Arnaldo-Luiz-CorreaO mercado futuro de açúcar em NY fechou a semana com ligeira baixa no vencimento outubro/2014, que encerrou a sexta-feira com queda de 15 pontos em relação à semana anterior. Março/2015 teve variação negativa pequena, de apenas 7 pontos (1,50 dólar por tonelada) e os demais meses todos encerraram com alta tímida.

A pergunta que todos fazem é se chegou a hora de comprar açúcar em NY. Ou seja, terão os preços chegados ao fundo do poço? Bem, em reais por tonelada vimos no dia 19 de agosto o preço mais baixo desde 13 de junho de 2013: 798.98 reais por tonelada. O mais baixo preço dos últimos 3 anos ocorreu em 11 de maio de 2011 quando NY negociou a 20,94 centavos de dólar por libra-peso e o dólar a 1,6203. Por isso é importante analisar a trajetória de preços em reais para ter uma ideia de quão pressionado está o mercado. O fato é que estamos num nível extremamente baixo mesmo se considerarmos que algumas coisas podem fazer mudar significativamente a direção que o mercado de açúcar vai tomar.

O PT nunca esteve tão perto de perder a eleição. As ações da Petrobras estão em alta assumindo essa possibilidade. Com mudança de governo é natural que o sangramento no caixa da estatal do petróleo seja estancado. Para isso, o nivelamento de preços dos combustíveis com o mercado internacional deve ocorrer. Preços ajustados trazem competitividade para o etanol. Mais cana deverá ser desviada para a produção de etanol no início da próxima safra. E para reforçar mais esse argumento de melhores preços, é bem provável que o crescimento na produção de cana para 2015/2016 não seja suficiente para as demandas de açúcar no mercado internacional e de etanol no mercado interno, considerando aqui também o acréscimo de mais ou menos 1.1 bilhão de litros de consumo com a mudança na mistura de 25% para 27.5%

Se for para desenhar uma estratégia aproveitando uma alta exponencial que o mercado de açúcar possa vir a sofrer em função do exposto no paragrafo anterior, é aconselhável que se faça isso usando opções e alguns níveis de stop para evitar surpresas desagradáveis. Lembre-se que o fator dólar pode ainda ser determinante no caso de piora do quadro politico e econômico.

No açúcar, a expectativa do mercado é que a Tailândia entregue pelo menos 650.000 toneladas de açúcar contra o contrato de NY para o vencimento de outubro, cuja expiração ocorre no dia 30 de setembro. Já se ouviram números bem maiores do que esse, beirando a casa dos dois milhões de toneladas. Foi essa perspectiva que fez com que o spread outubro/março negociasse a 200 pontos. Isto quer dizer o seguinte, quem estava posicionado na compra do contrato outubro/2014 na bolsa preferiu rolar a posição (vendendo o outubro e comprando o março) por não acreditar na melhora do mercado físico e, portanto, é melhor livrar-se do mico o quanto antes. Demonstra também a demanda fraca e a preferência por postergar uma compra agora esperando que as condições de mercado melhorem. Como a Tailândia, além de tudo, passa por uma recessão com o PIB encolhendo mais de 8%, é natural que haja pressão de venda de commodities.

Por aqui, tecnicamente, já estamos em recessão. O PIB brasileiro encolheu 0,6% no segundo trimestre do ano em relação ao trimestre anterior. Como bem observado pela MB Associados, “O governo Dilma segue entregando resultados mais pessimistas do que o mais pessimista dos analistas”. Segue a nota, “Com tantos trimestres em queda, fica difícil dizer que a recessão está localizada apenas no último semestre. De certa forma, ele se estende para trás e seria possível afirmar que o país segue em caráter recessivo”.

No acumulado do ano, as commodities tem um desempenho fraco. O complexo soja, o algodão e o milho acumulam quedas de 14% a 22%. Açúcar ainda acumula queda de 6%. O café é o dono do jogo com ganhos acima de 80% no acumulado do ano.

Pairam dúvidas ainda nas melhores cabeças do setor sobre qual será a relação de Marina Silva no âmbito sucroalcooleiro. Nota-se uma resistência menor sobre um eventual governo do PSB. Um renomado usineiro de São Paulo achou “positivas as opiniões externadas por ela a respeito do setor. Mostrou conhecimento, realismo e [reconhece] o alto valor do etanol e da bioeletricidade”. Outro usineiro comenta que “essa não vai ser uma eleição para eleger alguém, mas para tirar quem está aí atrapalhando o país”. Já um experiente trader de etanol comenta que Eduardo Gianetti da Fonseca teria em mãos um programa de incentivos fiscais para o hidratado e para a liberação dos preços da gasolina. Não pensei que fosse estar vivo para ver esse momento. Será possível?

Arnaldo Luiz Corrêa

Diretor Archer Consulting