Seguros

No campo ou na indústria, precaução acima de tudo

Setor sucroenergético é um dos segmentos que têm registrado maior crescimento na procura por seguro rural

O período de chuvas é aguardado pelo homem do campo, porque representa a chegada das águas, importante para o florescimento e o crescimento da planta, além do desenvolvimento da atividade agrícola. Mas também significa uma época perigosa e de atenção para a área rural, pois é quando aumenta a incidência de descargas atmosféricas, os tão tenebrosos raios. E no campo a atenção deve ser redobrada, pois a probabilidade de receber uma descarga é dez vezes maior que nas cidades.

Queimadas cana de açúcarA história sempre se repete, já que todo ano são vários os registros de produtores rurais em diversas regiões do Brasil que perderam centenas de cabeças de gado em suas propriedades ou até mesmo de incêndios em galpões, plantações e unidades industriais causados por queda de raios. Em janeiro deste ano, por exemplo, um incêndio destruiu um tanque de etanol da Usina Rio Claro, unidade da Odebrecht Agroindustrial, localizada em Caçu (GO). O incidente foi provocado por um raio e resultou na queima total do combustível do tanque, que possui capacidade para 20 milhões de litros de etanol. Controlado pelo Corpo de Bombeiros e Brigada de Incêndio da unidade, o fogo poderia ter representado prejuízo de mais de R$ 20 milhões, caso toda a unidade da Odebrecht Agroindustrial não fosse segurada.

Essa situação, que envolve fator climático, é apenas uma da lista de adversidades e imprevistos que podem acontecer na atividade agrícola e causar prejuízos ao produtor. Mostra ainda a importância do seguro rural para a economia nacional, já que, ao proteger a agricultura contra fenômenos climáticos adversos, o produtor garante ainda a estabilidade da renda, geração de emprego, desenvolvimento tecnológico e tranquilidade ao produtor e  ao mercado.

Luiz Carlos Meleiro Supervisor de Agronegócio da Allianz,

Luiz Carlos Meleiro
Allianz

A quantidade de produtores  e empresários brasileiros que se preocupam em fazer o seguro de suas propriedades, bens e capital tem crescido ano após ano. Porém, se forem consideradas todas as culturas, o número ainda é incipiente, se comparado a outros países. Apenas 8,64% das áreas agricultáveis – cerca de cinco milhões de hectares –, são seguradas no Brasil (enquanto 91,36% não possuem seguro), segundo dados da Allianz Seguros. Já em países como Canadá, Estados Unidos e China, o número ultrapassa 50% das áreas de cultivo. “Temos muito a desenvolver, mas estamos no caminho”, revela o supervisor de Agronegócio da Allianz, Luiz Carlos Meleiro.

As últimas informações apresentadas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) mostram que o setor sucroenergético é um dos segmentos que têm registrado crescimento na procura por seguro rural. Os dados são de 2011, integram relatório do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural e revelam que houve acréscimo de 17,2% nas contratações de seguro rural se comparado a 2010. As principais coberturas oferecidas para as lavouras de cana-de-açúcar são contra incêndio, geada, seca e granizo. Também foi registrado incremento na área segurada, que passou de 133.603 hectares para 902.210 hectares, representando 10,8% da área plantada de cana no País. De acordo com o relatório, o crescimento se deve à expansão considerável das áreas de cultivo, explicada, principalmente, pelo aumento na produção de etanol.

Opções

Canavial, unidade industrial, máquinas e implementos agrícolas, e até crédito rural são passíveis de ser segurados. Especialistas até orientam que o ideal é mesmo se precaver, segurar toda a propriedade rural e, com isso, ajudar a mudar a realidade de que 91,36% das áreas agricultáveis não são seguradas no País. Porém, antes de assinar qualquer contrato, o produtor precisa se ‘assegurar’ que está indo pelo caminho correto, conhecer as formas de seguro, entender o que difere um do outro e como proceder no momento da contratação e até do resgate – se necessário.

Luís Carlos Guedes Banco do Brasil/Mapfre

Luís Carlos Guedes
Banco do Brasil/Mapfre

De acordo com o diretor geral de Seguros Rurais do Banco do Brasil/Mapfre, Luís Carlos Guedes, existe diferença entre seguro rural e seguro agrícola. “O primeiro é o genérico, engloba outras opções, enquanto o segundo é específico”, destaca. Utilizando a forma genérica, o rural possui três típos básicos de seguro – da produção agrícola, patrimonial e do crédito rural.

Seguro da produção agrícola

Com mais de 13 anos de experiência de mercado na área de seguro rural, sendo que há três passaram a atuar juntos, e respondendo por 70% do seguro rural no Brasil, o BB/Mapfre possui dados que mostram que, somente em 2012, 55 mil contratos de seguro agrícola foram realizados. Para essas situações, o agricultor busca garantir proteção para a culturas como cana-de-açúcar, café, trigo, arroz, soja, milho etc. Atualmente, é considerada uma opção cara, o que talvez explique o motivo de apenas um número reduzido de produtores utilizá-la para proteção de suas lavouras. Também é a razão  pela qual o governo federal lançou, em 2005, subsídio que chegam a 70% do valor total avaliado (ver quadro).

De acordo com relatórios de sinistros da BB/Mapfre, os riscos principais são seca, geada, granizo, ventos fortes, trombas d´água e outros problemas climáticos.  No entanto, o diretor da empresa, Luís Carlos Guedes, informa que a cana é uma cultura bastante resistente, por isso o risco é relativamente baixo para a cultura. “Mesmo assim, podem acontecer adversidades. Em 2012, tivemos uma área de 10 mil hectares, no Mato Grosso do Sul, que sofreu com enorme geada, resultando na queima de todo o canavial. Foi a maior indenização paga no ano passado, com valores próximos de 9 milhões de reais”, exemplifica. Luís Carlos Guedes explica, ainda, que nos casos do seguro da produção agrícola o valor da cobertura é, em média, de 70%. “Claro, o produtor pode contratar mais, até 100%. Porém, o custo é elevado.”

Antes de efetuar o contrato de seguro da produção agrícola, profissionais da seguradora vão até a propriedade, realizam inspeção para verificar se o produtor realmente plantou o que indicou na proposta, isso porque é preciso seguir normas técnicas do Mapa. “Existem épocas e regiões certas para se plantar. Ninguém cultiva café na região Sul do País por causa das geadas em certas épocas do ano. Então, se algum produtor quer fazer seguro para cafeicultura na região, não será aprovado. Em qualquer cultura, tem que seguir os procedimentos técnicos adequados, sementes melhoradas, enfim, atender aos normativos básicos para a cobertura do seguro”, reforça Luís Carlos Guedes. Cabe ainda ao produtor informar à seguradora a expectativa de colheita, ou seja, quantas toneladas por hectare pretende colher para determinada cultura segurada.

Em caso de sinistro, que é a materialização do risco, o produtor precisa acionar a seguradora imediatamente. O BB/Mapfre, por exemplo, possui uma central telefônica que funciona 24 horas por dia, o ano todo, para atender essas situações. Assim que acionada, a seguradora já inicia o processo de averiguação, por meio da coleta de informações e visita técnica ao local. Tudo é feito para verificar o grau de severidade na cultura. “Com isso, é feito um laudo, que resgata até mesmo a expectativa de colheita informada no contrato”, orienta.

O diretor do BB/Mapfre, Luís Carlos Guedes, cita uma situação hipotética para explicar, de forma prática, como são feitos os procedimentos de sinistro e cobertura da produção agrícola. “Se a expectativa é colher 100 toneladas por hectare de cana-de- açúcar, houve o comunicado de geada, que prejudicou 30% do canavial, e mesmo assim a propriedade vai colher 70 toneladas por hectare, então não é feita a indenização. Agora, se colher menos, a gente paga a diferença”, afirma.

Incentivo que vem do poder público

No Brasil, o seguro rural ganhou impulso a partir de 2005 e busca a sua consolidação como um mecanismo para o desenvolvimento do setor. O governo federal reconhece a importância desse mercado e tem buscado incentivar produtores a aderirem ao procedimento, como forma também de fortalecer a agropecuária brasileira. A subvenção ao prêmio de seguro rural, comum também em vários países, é hoje o incentivo principal aos produtores na aquisição de um seguro rural. Trata-se de uma maneira de auxiliar o produtor na contratação de um seguro, por meio do pagamento de parte do valor da apólice, que pode chegar a até 70% do valor do seguro. 
O Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), instituído pela Lei nº 10.823/2003, iniciou-se em 2005, com a preocupação de dar início ao processo de massificação das contratações de seguro rural, ofertar essa modalidade de garantia em todas as regiões produtoras e despertar o interesse do produtor em sua contratação. Em 2011, foram gastos R$ 253,5 milhões com o pagamento da subvenção ao prêmio do seguro rural, valor 28% superior ao alocado em 2010, o que permitiu a aquisição de 57.885 apólices de seguro rural por 40.109 produtores, garantindo capitais da ordem de R$ 7,3 bilhões e proporcionando cobertura securitária para 5,6 milhões de hectares, entre lavouras de grãos, frutas, legumes e verduras, fibras, cana-de-açúcar, além de florestas e pecuária.

Seguro patrimonial e de crédito rural

O seguro patrimonial engloba tratores, colhedoras, armazéns, estábulos, galpões, construções rurais. Só não inclui a unidade industrial (que possui seguro específico). No ano passado, foram 250 mil contratos firmados para máquinas no País, sendo que de 5% a 8% apresentam algum tipo de sinistro, de acordo com a média do setor. Na hora de efetuar o contrato, a seguradora solicita documentos pessoais e certificados de propriedade. Nos casos de sinistros, que normalmente são acidentes, capotagem, incêndio, batidas etc, a cobertura é total. Para máquinas, tratores e colhedoras é preciso pagar franquia, como ocorre com automóveis. O procedimento adotado para verificar o risco é também idêntico ao dos veículos. O perito vai até o local para avaliar se configura perda total ou se é possível recuperar em oficina especializada. Em situações de roubo, a orientação é para que o produtor faça o Boletim de Ocorrência (BO).

O seguro do crédito rural é aplicado, principalmente, em casos de empréstimo para a atividade agrícola. A cobertura também é total. Se o produtor rural faz empréstimo no valor de R$ 500 mil, oferece a propriedade rural como garantia e por alguma situação vem a óbito, o banco credor pode ‘tomar’ a área como pagamento. Com o seguro do crédito rural, a seguradora arca com o pagamento.

Riscos e mercado

Assim como canaviais, plantações, unidades industriais, máquinas e outros itens podem ser segurados, as próprias seguradoras também recorrem a esse procedimento para reduzir riscos – as resseguradoras. “Imagina todo mundo tendo problema ao mesmo tempo e precisando de cobertura, do prêmio, as seguradoras não teriam como pagar”, informa Luís Carlos Guedes. Por isso, explica o diretor, as seguradoras tentam diversificar as opções de seguro. “De vez em quando tem um evento que dá um prejuízo danado, mas se dilui no meio dos outros. O conjunto do seguro rural nos permite obter ganho. No seguro agrícola, tem ano que a gente paga menos do que recebe”, enfatiza.

Também foi por este motivo que foi criado pelo governo federal o Fundo de Catástrofe, reserva de recursos para garantir a atuação das companhias de seguro rural e que poderá ser usado para bancar parte das perdas, evitar falência de seguradoras e permitir o crescimento do número de apólices.

O diretor do BB/Mapfre, Luís Carlos Guedes, avalia que, apesar do crescimento incipiente, dos riscos, o mercado de seguros é positivo. “Nós trabalhamos com margens para tornar esse seguro atraente para o cliente e ao mesmo tempo para as seguradoras. Vai se tornar cada vez mais atraente quando mais gente optar pelo seguro. É um mercado atraente, mas nós precisamos ampliá-lo e diversificá-lo”, relata.

Seguro como ferramenta de garantia

Com mais de 40 clientes entre produtores de açúcar e etanol, totalizando carteira de R$ 5 milhões, a Allianz Seguros tem ampliado sua cobertura para empresas do setor sucroenergético. A empresa possui 12% do mercado da cana- de-açúcar com a oferta de produtos que cobrem desde o canavial até problemas com máquinas e equipamentos e danos provocados por vendavais ou acidentes, como a explosão de uma caldeira.

Voltado para o canavial, a Allianz oferece seguro que garante cobertura contra incêndio e outras intempéries da natureza. A empresa possui, desde a cobertura básica – incêndio acidental -, como adicionais – chuva excessiva, ventos fortes, granizo, geada, seca e inundação. Na área de unidades industriais, a Allianz tem em seu portfólio, à disposição dos produtores, cobertura para usinas de açúcar. O seguro protege instalações, edificações e construções, com cobertura básica ampliada para incêndio, queda de raio e explosão de gás de uso doméstico, explosão de qualquer natureza, incêndio resultante de queimadas em zonas rurais, além de coberturas opcionais para alagamento, danos elétricos, demolição e desentulho, desmoronamento, quebra de vidros, entre outros.

Autor: Fernando Dantas – Canal Bio Energia

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