Entrevista André Rocha – presidente do Sifaeg/Sifaçúcar e do Fórum Nacional Sucroenergético

POSSE - foto Jeronimo Castro - (189)A alta dos custos de produção na indústria sucroenergética é considerada um dos fatores responsáveis pela perda de competitividade do açúcar brasileiro. O que mais pesa nesta conta?

Tivemos um problema muito sério em relação ao ano passado que foi uma alta dos nosso custos logísticos, com destaque para o estatuto do motorista. Com isso os gastos aumentaram, assim como a dificuldade para conseguir caminhões e motoristas para fazer frete. Essa situação provocou uma alta de quase 8,6% nos nossos Custos de frete, que passaram de US53,7 por tonelada para US58,31.

Que avaliação pode ser feita sobre a produção de açúcar na safra passada?

A produção de açúcar foi menor que no ano anterior, em razão do preço menor, o que inibiu a produção. Além disso, o mercado se encontrava superavitário. A boa notícia é que no caso do açúcar nós tivemos no ano passado a desoneração do IPI e do Pis/Cofins. Além disso, as nossas exportações continuaram crescendo, o que acontece desde 2005, chegando a quase 64%. Em outros países houve uma queda de 5,8% nas exportações.

E em relação ao etanol, houve algum fator positivo?

O que houve de positivo no ano passado em relação ao etanol foi a questão da volta do porcentual da mistura de anidro na gasolina, que estava em 20% e retornou aos 25% a partir de primeiro de maio do ano passado. Isso possibilitou uma demanda adicional de quase 2 bilhões de litros. Outra boa notícia foi também a desoneração do Pis/ Cofins sobre a venda do etanol no mercado interno. Apesar disso, ainda não tivemos resultados concretos, pois só agora a Medida Provisória 627 está sendo regulamentada para que esses créditos sejam aproveitados. Apesar de ter sido anunciado em primeiro de maio do ano passado, mais de 11 meses depois ainda não tivemos a efetividade desses créditos para o setor. É preciso lembrar que esses encargos são bem pesados para as indústrias estabelecidas aqui em Goiás e no Mato Grosso do Sul, porque é justamente onde houve maior implantação de indústrias nos últimos tempos, o que gerou maiores investimentos e maiores créditos. O nosso pedido é que pudéssemos obter rapidamente os créditos acumulados até 2013, mas receberemos apenas até 2011, o que não é o ideal, mas já ajuda o setor, pois estamos falando de mais de R$ 1,4 bilhão.

E o que pode ser destacado em relação à concorrência entre etanol e a gasolina?

Um fato que aconteceu no ano passado em Minas Gerais, Paraná e, sobretudo em São Paulo, foi a realização de uma campanha publicitária muito forte, a campanha Etanol Completão, justamente para que pudéssemos recuperar o nosso market share. Houve também dois aumentos dos preços da gasolina para as refinarias, mas eles não foram, necessariamente, repassados para o consumidor. Está havendo dois subsídios, o primeiro quando o governo retirou a Cide da gasolina, diminuindo a competitividade do etanol, e o outro é quando ele deixa de repassar o preço da gasolina no mercado internacional. A Petrobras compra gasolina mais cara lá fora do que ela vende aqui dentro, o que está causando um grande prejuízo à Petrobras.

E quanto à participação da frota flex no mercado brasileiro?

A nossa frota flex cresceu. Nós já temos quase 21 milhões de veículos, ao passo que a frota de veículos exclusivamente a gasolina caiu para 11,32 milhões de unidades. A participação do etanol no consumo do ciclo Oto subiu. Nós tínhamos 31,8% em 2012 e passamos a ter 33,7% em 2013, o que também é uma boa notícia, apesar de já termos chegado a 45,4% em 2009.

Qual o impacto desse crescimento na economia do País?

O aumento da participação do etanol na safra passada é importante porque nós deixamos de importar o equivalente a 3,5 bilhões de litros de gasolina com o aumento da mistura de anidro e da participação do etanol hidratado no ano passado, o que gerou uma economia significativa para o País.

E como está o endividamento do setor sucroenergético?

Infelizmente, houve um grande aumento do endividamento do setor, que atualmente é equivalente ao faturamento anual de todas as nossas empresas. Isso mostra o problema que várias das nossas indústrias estão atravessando. Temos 56 indústrias em recuperação judicial, 48 indústrias já foram fechadas nos últimos quatro anos e teremos, no mínimo, 12 unidades que não vão processar essa safra, vão vender a cana para outras unidades, o que levará à perda de mais de 10 mil empregos no nosso setor.

Quais são as consequências mais importantes dessa crise para a sociedade?

Essa crise não é só para as usinas, ela também afeta a indústria de base e uma série de municípios, principalmente aqueles que dependem da arrecadação de impostos e dos empregos gerados por essa indústria de base. É uma crise que também afeta os fornecedores de cana, os trabalhadores, não só aqueles que são dispensados, mas também aqueles que não podem ter aumento ou que estão tendo atrasos de pagamento, o que afeta a economia de muitas cidades. Temos hotéis, supermercados e restaurantes fechando, ou seja, é uma crise ampla, resultado desse momento que o setor tem passado.

Qual é o fator determinante para a crise chegar a esse ponto?

O que agravou essa situação foi a perda de competitividade que o setor enfrenta, em função do subsídio dado à gasolina pelo governo federal, a exemplo da desoneração que houve com o fim da Cide, o que também trouxe prejuízos para os municípios em razão da perda de arrecadação. Além disso, tivemos aumentos dos custos, em função do aumento da taxa Selic, do dólar, do preço das terras, da remuneração da mão de obra. Os estados também perderam arrecadação e recursos que eram investidos na melhoria de sua malha viária. É uma situação em que todos perdem, o setor e o Brasil. Temos déficit comercial, aumento da importação da gasolina e grandes prejuízos à Petrobras.

O setor tem buscado aumentar a produtividade para enfrentar essas dificuldades?

Nós fizemos o nosso papel no ano passado, quando nós aumentamos a nossa produtividade, que tinha caído para 74,2 toneladas de cana por hectare e passou para 80,3 toneladas por hectare. O setor novamente fez um esforço muito grande, expandiu, renovou o canavial no intuito de aumentar seu desempenho. Fizemos esse esforço esperando, também, políticas públicas que pudessem ajudar a partir desse ano, mas isso infelizmente não aconteceu.

E como tem se comportado o preço do etanol neste cenário adverso?

Os preços do etanol hidratado, praticados no ano de 2013, assim como acontecia em 2012, são inferiores aos preços praticados em 2011. Nós tivemos preços que não conseguiam remunerar as indústrias, de uma maneira geral, o que levou ao agravamento da crise. O mesmo vale para o etanol anidro. O preço médio na usina em 2013 foi de R$ 1,32; em 2012 foi de R$ 1,27, ou seja, houve uma melhora, porém, em 2011, o preço médio foi de R$ 1,47. Ou seja, nós tivemos uma queda de preço desde 2011 que não conseguimos recuperar. O hidratado, que nós vendemos no ano passado a R$ 1,047, teve um aumento em relação a 2012, que tinha sido de R$ 0,97. Porém, em 2011 nós vendemos a R$ 0,98, ou seja, isso mostra que apesar do aumento de custos e do aumento que nós demos para a mão de obra, nós não estamos conseguindo remuneração.

Quais são as perspectivas em relação à exportação de etanol para este ano?

Tivemos uma diminuição grande no ano passado das exportações de etanol e estamos preocupados com as perspectivas para este ano. Nós deveremos ter esse ano uma queda de quase 1 bilhão de litros de etanol. Nós, que já exportamos mais de 4 bilhões de litros, vendemos em torno de 2,5 bilhões e, nesta safra, deveremos vender apenas 1,5 bilhão de litros, o que é mais um problema para o nosso setor.

E qual é a situação da bioeletricidade gerada nas usinas?

Infelizmente, o governo ainda não valoriza a bioeletricidade. No nosso setor, apenas 40% das indústrias estão exportando bioeletricidade, atualmente, e não com todo o seu potencial, pois teriam que fazer retrofit, trocar caldeiras, turbinas e geradores. Temos um potencial muito grande, mais do que duas Itaipus e não o estamos aproveitando. Hoje nós estamos gerando apenas 3,5 mil Megawats. Exportamos em torno de 1,7 mil MWs e consumindo 1,8 mil MWs, o que já é um ganho importante para o País. Imagina como seria se tivéssemos que utilizar esse montante do sistema elétrico nacional, com o nível atual dos reservatórios das hidrelétricas.

Mesmo limitado o setor tem uma contribuição importante na produção de eletricidade?

O que exportamos para o sistema no ano passado permitiu uma economia de 7% dos nossos reservatórios. Temos vários fatores que valorizam essa capacidade que o setor tem de produzir energia, como a geração distribuída, o fato da cogeração ser produzida próximo aos pontos de consumo, o que resulta em menos perdas e menos custos de transmissão. O governo estava fazendo leilão considerando apenas o preço inicial, comparando o nosso setor com eólicas que, por enquanto, ainda não pagam pelo vento. Daqui a pouco é possível que o governo tenha essa criatividade. O custo da transmissão pela eólica torna a energia final mais cara em relação à energia produzida a partir da biomassa, que é gerada próxima aos centros de consumo. Essa situação não incentivou as empresas a investirem na cogeração.

Há uma distorção no estabelecimento dos preços?

Para se ter uma ideia, o preço do Proinfra, de 2005, se atualizado, daria, mais ou menos R$236 por megawatt. No último leilão de energia o preço praticado foi de R$ 141, ou seja, uma queda de praticamente R$100 por MW em 8 anos. E o que nós pedimos ao governo é que ele considere as nossas externalidades, como fato de a energia ser gerada no período seco, o fato de se ter um menor custo de transmissão, mas isso não é aceito pelo governo. Nós queríamos ofertar a energia em torno de R$ 180 o MW, mas o governo achou caro e preferiu não comprar. Neste momento está pagando R$ 822 o MW das térmicas, que é o teto estipulado pelo governo. Em suma, com todos esses problemas nós estamos perdendo empregos, investimentos, o meio ambiente tem perdido por utilizarmos combustíveis fósseis, poluindo a nossa matriz energética. E o consumidor é quem vai pagar a conta, assim que passar o período eleitoral. E o mesmo vai ocorrer com a gasolina, que está com o seu preço represado.

Entrevista concedida ao jornalista Evandro Bittencourt, editor do Canal =Jornal da Bioenergia

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